Seria a Hiperconectividade uma nova doença do século XXI?

Consequências físicas, sociais e emocionais já são percebidas pelos profissionais

Por Laura Parente e Stefanne O’hana

Oito horas da manhã de um domingo. O smartphone apita. É uma notificação do sistema que alerta o tempo de uso do aparelho nos últimos sete dias. Resultado: 56 horas e 20 minutos. Destas, 43 horas dedicadas às redes sociais. Quantidade de notificações diárias? Duas mil e novecentas. Vida social? Quase nada. Foi assim que a estudante Maria Clara Silva, de apenas 17 anos, percebeu o quanto a hiperconectividade estava atrapalhando os seus relacionamentos presenciais.

Nos grandes centros urbanos, é claramente perceptível o quanto as pessoas andam cada vez mais conectadas. Nos ônibus, as cabeças baixas e os dedos nervosos na tela do celular são sinais claros de que ali laços virtuais estão sendo formados ou mantidos. Para o sociólogo Francisco Mesquita, se olharmos atentamente a nossa volta, o isolamento social é uma realidade que pode não estar tão distante de nós.

Informações do celular de Maria Clara. (Foto: Reprodução/ Sistema Operacional)

 “Tudo na internet é atrativo. As novidades dos sites. A facilidade de conexão e, principalmente, de criação e manutenção de personagens. Tudo isso contribui para que cada vez mais você fique imerso nesse meio online. E o problema mora justamente aí, por que os contatos sociais e as interações face a face são fundamentais para a construção de uma sociedade equilibrada e saudável”, pontuou.

E já que o assunto é equilíbrio e saúde, Maria Clara relembra que foi justamente no período em que vivia mais conectada, que descobriu alguns problemas que refletem até hoje no seu dia a dia. Problemas estes que sua mãe já alertava.

“De cara eu comecei a usar óculos. Depois tive problemas para dormir. Sentia muitas dores de cabeça e ás vezes até náuseas, por causa da luminosidade. Minha postura estava completamente errada, o que me causava dores nas costas. Eu vivia irritada, ansiosa, sem paciência. Evitava ao máximo sair ou ficar em rodas de conversa. Enfim, eu estava toda errada e foi um período muito difícil para quem convivia comigo”, brincou a estudante.

(Foto: Reprodução/ Internet)

O vício que atrapalha

Além dos problemas de saúde que podem ser causados, a hiperconectividade pode desencadear também vícios que fazem com que a pessoa fique totalmente dependente da tecnologia e da conectividade.

Não conseguir realizar outras atividades, ou simplesmente não conseguir ficar longe do seu celular durante algum período do dia, são algumas amostras do que o vício na hiperconectividade pode causar.

O estudante Marcos Vinicius, 21 anos, conta que utiliza seu celular durante todos os momentos do seu dia e o larga, praticamente, apenas na hora de dormir. De acordo com Marcos, o uso excessivo do aparelho acaba atrapalhando a realização de outras atividades, como estudar ou fazer atividades físicas.

(Foto: Reprodução/ Internet)

“Acredito que utilizo meu celular de 8 a 10 horas por dia. Uso em todos os momentos do dia e enquanto estou fazendo qualquer outra coisa, menos quando estou dormindo. Esse uso excessivo atrapalha na dedicação a outras tarefas do dia a dia, atrapalha no desempenho e tira a atenção de atividades importantes. Chego a ficar muito triste quando fico sem celular ou quando estou em algum lugar onde não tem sinal de internet. Quando estou com o celular eu fico procrastinando as atividades em casa, os trabalhos da faculdade e adiando os assuntos que preciso estudar”, relata Marcos Vinicius.

O que fazer quanto à dependência conectiva?

O psicólogo José Augusto Silva explica o que seria essa hiperconectividade e como, em muitas vezes, o que consumimos nela não nos é útil. O profissional deixa claro que, nos dias de hoje é necessário que haja sim uma conexão, mas que a mesma seja feita de maneira saudável.

“A hiperconectividade é o excesso, o exagero, a sobrecarga dessa conexão com a internet, com as redes sociais, com a informação. Do nome hiperconectividade a gente já pode concluir que a quantidade de informação é altamente exagerada e muitas das vezes qual é o prejuízo principal dessa hiperconectividade? É que esse excesso de informação muitas das vezes não nos é útil”, disse.

(Foto: Reprodução/ Internet)

Segundo o profissional, muitas das vezes as informações que recebemos na internet não acrescenta de maneira positiva na vida da pessoa. De acordo com José Augusto, esse exagero de informações faz com que cada vez mais o usuário se conecte com distrações e com coisas que tomam um tempo que poderia ser utilizado de modo mais produtivo.

O psicólogo ainda explica sobre as relações da conexão e aceitação pessoal. Ele conta como pode-se ver cada vez mais esse acontecimento nas redes sociais e como isso pode desencadear doenças sérias, como ansiedade e até depressão.

“Essa hiperconectividade é nociva porque em muitas das vezes a gente acha que a questão da aceitação está diretamente ligada ao número de seguidores que temos, ou ao numero de curtidas, ou se comentaram alguma coisa que postamos, geralmente o ser humano cria uma dependência dessa conectividade e esse fator é prejudicial porque dentro dessa dependência você começa a ter uma baixa resistência a frustração. Muitas das vezes pode desenvolver sintomas de ansiedade e de depressão”, explica o psicólogo.

Um grande exemplo em relação à essa questão da aceitação atualmente é a crescente do uso do aplicativo Instagram. Nele, milhões de pessoas postam fotos, vídeos e comentários sobre suas vidas e sobre a vida de segundos. Blogueiras e blogueiros mundialmente conhecidos chegam a ter mais de 100 milhões de seguidores nessas redes e, querendo ou não, padrões de vida ou de beleza são impostos por elas.

(Foto: Reprodução/ Internet)

A dificuldade de se encaixar ou a frustração de não ter uma vida perfeita para mostrar para os seus seguidores já virou assunto recorrente entre estudiosos da internet. Visando diminuir esse fenômeno, recentemente o Instagram divulgou que estaria realizando testes no aplicativo onde, por exemplo, uma das principais mudanças seria a ocultação do número de curtidas que uma pessoa recebe em sua foto.

“A conectividade é necessária. Muitas das vezes nós não conseguimos ficar desconectados por que nós precisamos de internet no banco, no trabalho, nos estudos e até pra solicitar comida, mas todo o excesso é prejudicial e se isso for severo o suficiente mais ansioso você vai ficar, e mais depressivo você pode ficar, porque você cria dependência”, encerra o José Augusto.

Hiperconectividade e os perigos das comunidades virtuais

Assim como numa comunidade real, dá muito trabalho criar e manter uma comunidade virtual. Pessoas só se agrupam em comunidades quando há interesse, prazer ou as vezes, obrigação. É como um grupo de amigos que se reúne para um encontro. O que lhes movem é o prazer por estarem juntos.

(Foto: Reprodução/ Internet)

De acordo com o sociólogo Francisco Mesquita, é preciso muito cuidado e moderação ao se hiperconectar com comunidades, haja vista que pela quantidade de participantes, não há uma ponderação no que é falado, ou melhor, publicado, fato que pode influenciar e encorajar ideias muitas vezes perigosas.

“A internet se tornou um espaço em que de certa forma cada um de nós, imerso nesse meio, ganhamos poder. E o impacto desse poder é imensurável. Você está ali, só você e sua máquina, então você escreve e fala aquilo que você quer, e isso, querendo ou não, lhe encoraja a fazer muitas coisas. O que pode ser perigoso para a sociedade como um todo”, comentou Francisco.

Além disso, o sociólogo reflete sobre a forma como as pessoas ultimamente se utilizam das comunidades. “Dentre um mundo de possibilidades e bom uso que podemos fazer da internet, o que a gente vê são pessoas que usam o celular apenas para fazer coisas sem muita relevância, como postar foto do que está comendo. E o interessante disso, é que uma onda de comunicação se forma através dessa postagem, gerando milhões de comentários e curtidas. O que se busca é atenção. E não importa pelo quê”, finalizou.

Tem como viver sem estar conectado?

E se por um lado vemos, em sua grande maioria jovens, superconectados, ou até mesmo viciados, no século XXI, em meio à crescente da globalização, encontramos pessoas que ainda estão presas aos moldes do passado. Existem pessoas que, mesmo sendo difícil de acreditar, não utilizam o celular ou até mesmo nem sabem direito como funcionam esses e outros aparelhos que conectam as pessoas.

Quem lembra quando a maioria dos celulares eram assim?. (Foto: Reprodução/ Wikicommons)

A funcionária pública Maria do Carmo, 48 anos, conta como é viver sem um celular sofisticado e, na maioria do tempo, sem conexão. “Meu celular é bem simples, porque não gosto desses outros modelos. Utilizo apenas para fazer e receber ligações. Não gosto dessa ideia de passar o dia inteiro dependente de um celular para ficar recebendo mensagens toda hora. Quanto ao quesito de buscar informações, eu ainda prefiro assistir a telejornais ou escutar ao rádio. Hoje em dia as pessoas perdem muito tempo com o celular. É difícil ver alguém que não esteja perto do seu celular moderno 24 horas por dia, e eu não quero isso para mim. Gosto de realizar minhas atividades normalmente, sem nenhum vício para me impedir”, conta Maria.

Ser ou não ser conectado? Esta é uma pergunta que por vezes fica sem respostas. No entanto, é interessante observarmos que na maioria das vezes essa resistência ao uso de aparelhos mais modernos parte quase sempre das pessoas que possuem mais idade, que ao ter um contato mais próximo de aprendizagem e intimidade com o aparelho, acabam também aderindo a essa nova “moda”.  O fato é que ninguém está imune às influências da conectividade e para que isso não vire uma dependência é necessário algo simples e necessário, equilíbrio.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Laboratório Avançado II: Webjornalismo – 2019.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira.

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