Doulagem como forma de combate a violência

Para evitarem casos de violência obstétrica, gestantes procuram serviços de doulas para acompanhamento durante a gravidez

José Jonas

Nascer, é o primeiro ato de todo ser humano. Sair do ventre de uma mulher é o primeiro passo pelo qual todos nós passamos para prosseguirmos com nossa existência neste mundo. Ainda assim, por mais que esse ato seja carregado de simbolismos, muitos ainda se esquecem que essa vida é gerada em outro ser humano que, em muitas e muitas ocasiões, não tem o direito de escolher como, ou onde, irá “dar a luz”.

É na tentativa de, justamente, terem um tratamento mais humanizado e uma assistência mais cuidadosa durante o período do parto e pós-parto que muitas mulheres recorrem aos serviços das Doulas: profissionais responsáveis por prestar apoio e suporte físico e emocional às gestantes desde a gravidez até o período de puerpério (onde o corpo da mulher ainda está se recuperando).

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Gestante se preparando para o parto com apoio do acompanhante (Reprodução/ Instagram)

O trabalho da Doula

A doula Ana Carolina Dias faz parte do Elã Fotografia e Doulagem, uma equipe formada por ela, uma outra doula e uma fotógrafa, que registra algumas das intervenções e partos realizados pelo grupo. Desde 2017 elas vem prestando atendimento a gestantes com a ideia de promoção de um parto mais humanizado, com mais respeito e atenção a mulher grávida:

“Você quer um parto respeitoso, onde você escolhe a posição que você vai parir, onde respeitem o seu silêncio ou seu grito? Então você quer um parto humanizado, onde te tratam como um ser humano naquele momento”.

De acordo com Ana, o trabalho de doulagem se pauta por três pilares: o primeiro, das evidências científicas, com estudos que mostram a importância do acompanhamento de práticas que favoreçam o bem estar da gestante e que evitem intervenções médicas desnecessárias, ou mesmo violentas; O segundo, do protagonismo da mulher, onde é ela quem decide sobre os procedimentos e ações sobre seu próprio corpo; E o terceiro, da equipe multidisciplinar, que participa do processo de parto e pós-parto.

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Ao centro, Ana Carolina em encontro com outras doulas de Teresina-PI (Reprodução/ Instagram)

Esse último pilar, como afirma a doula, prima também pelo respeito ao espaço e a atividade de cada um dos profissionais envolvidos. “Têm vários profissionais que atuam no parto, a médica obstetra, a enfermeira obstetra, a fisioterapeuta e também a doula, e nenhuma dessas pessoas está tomando o lugar da outra. Todos estão lá cumprindo uma tarefa, uma função”, aponta

Mesmo assim, segundo o relato de Ana Carolina, a profissão não é bem vista por alguns setores da área médica, em especial pela cúpula dos conselhos de medicina, órgãos que têm como função fiscalizar a prática.

“Exemplo disso foi o Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) que conseguiu uma liminar que dá ao o médico o poder de proibir a presença da doula, se ele não concordar com a sua presença. Isso levanta questões sobre quais são as práticas desse profissional, por que ele está incomodado com a presença da doula?”

A doula e a violência obstétrica

O trabalho de doulagem por um parto humanizado surge em contraposição a relatos de descaso, de aplicação de procedimentos desnecessários, ou mesmo casos de abusos cometidos contra gestantes, como explica Ana Carolina. “A violência Obstétrica não é cometida necessariamente por um médico obstetra. Qualquer pessoa que está naquele cenário da maternidade, seja o maqueiro, seja o porteiro, seja a doula, que tenha uma prática que não condiz com a ética ou com o respeito para aquela parturiente, não deveria estar ali”.

Ana comenta também que é justamente o medo de que algum ato de violência seja cometido que leva as gestantes a procurarem o trabalho de doulagem, como forma de proteção. “A maioria delas nos procura dizendo que não quer sofrer violência, elas estão buscando informação querendo se apoderar, e se empoderar, desse momento [do parto]”, pontuou.

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Gestante durante trabalho de parto, acompanhada por equipe multidisciplinar (Reprodução/ Instagram)

A afirmação vem na contramão do despacho do Ministério da Saúde, emitido no dia 03 de maio, que determina a não utilização do termo, pois:

“acredita-se que, tanto o profissional de saúde quanto os de outras áreas, não tem a intencionalidade de prejudicar ou causar dano”.

O documento recebeu o endosso do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que respondeu, em nota, afirmando que “o uso da referida expressão tenta demonizar a figura do médico obstetra, como único responsável pelas dificuldades do atendimento e por eventuais maus resultados na assistência ao parto e nascimento, com o que não concordamos”.

Tanto o Ministério da Saúde quanto a Febrasgo mantinham em blogs e sites oficiais, até a publicação desta matéria, textos com a interpretação anterior ao despacho, explicando o que é e como ocorre a violência obstétrica, além de dar orientações sobre formas de denunciar sua ocorrência.

Amparadas por lei

No dia 19 de agosto de 2016, em Teresina, foi sancionada a lei municipal 4935/16 que garante a presença da doula junto a gestante durante o momento do parto, seja em hospitais da rede pública ou privada, acompanhando legislações parecidas aprovadas no mesmo período, como em São Paulo, por exemplo.

A falta de uma legislação nacional, entretanto, e a falta de compreensão por parte da comunidade médica, ainda estigmatizam muito a presença da doula. “Tem lugares que não são muito receptivos tem outros que já são mais, dependendo também de quem assume o plantão, mas ainda assim estamos mostrando nosso trabalho, mostrando que não estamos lá para brigar com ninguém se cada um fizer seu serviço com ética e responsabilidade”, aponta Ana Carolina.

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Mãe segura bebê recém-nascido, após parto acompanhado por doula (Rerodução/ Instagram)

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Laboratório Avançado II: Webjornalismo – 2019.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira.

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