A juventude brasileira e o fenômeno do endividamento

Quatro de cada dez pessoas estão ou já estiveram com o nome sujo no Brasil. Tendência de inadimplência se repete entre os jovens

Repórteres: Mariana Silva & Herbet Brandão

Mais da metade das famílias brasileiras possui contas pendentes. E de cada dez pessoas, quatro aparecem ou já apareceram no cadastro de inadimplência do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Desse total, cerca de 18 milhões têm entre 30 e 39 anos de idade. Segundo a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas, as pessoas com essa idade continuam sendo as mais endividadas. Para grande parte delas, os problemas começam ainda mais cedo, com a chegada da vida adulta.

Um relatório elaborado pelo Banco Mundial aponta que 50% dos jovens brasileiros de 19 a 25 anos de idade corre o risco de não conseguir um bom emprego no futuro e virar refém das dificuldades financeiras. Essa porcentagem inclui aqueles que não trabalham nem estudam e os jovens estudantes que não completaram todas as etapas da formação.


Fonte: CNDL e SPC Serasa – Via: Estadão

Ao Portal Luneta, o economista e professor João Victor Sousa também associa o problema à baixa capacidade do mercado brasileiro de absorver profissionais com passagem pelo ensino superior. São esses os setores que concentram a maior parte dos empregados no Brasil. O fenômeno faz com que a economia brasileira seja dominada por setores que não produzem tanto.

Mesmo entre os que estão empregados, perder o emprego ainda é um risco. Segundo o economista, pessoas mais velhas costumam ocupar empregos mais estáveis e tendem a se manter empregadas em função de sua experiência. É por isso que em períodos de crise, os mais experientes, mesmo com a possibilidade de retenções salariais, estão menos vulneráveis a demissões.

“A situação do endividamento é preocupante, mas é outro detalhe. É algo que limita a demanda e consequentemente fragiliza o mercado interno. É algo que desestimula investimentos e desencoraja a atividade produtiva. Para saída da crise, seria algo essencial a ser corrigido”

João Victor Sousa, economista e professor na UFPI

A Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) e o birô de crédito SPC Brasil, mapearam a situação financeira dos brasileiros entre 18 e 24 anos, que iniciam nos primeiros passos profissionais. Segundo o levantamento, em janeiro de 2019, havia 4,81 milhões de consumidores negativados com idade nessa faixa.

Jovens relatam experiência com dívidas

Para Maiévira Pereira, 26 anos, o grande vilão foi o cartão de crédito. Assim como a maioria dos jovens, ela prefere o cartão a outras formas de pagamento na hora da compra. O limite foi aumentando até que o valor dos gastos ficou mais alto que seu próprio salário.

“Comecei a atrasar as prestações por causa do preço alto da fatura, porque usava demais e sempre parcelava a conta. O principal fator para minha dívida foi esse, usar mais do que ganho”

Maiévira Pereira, 26 anos

Diante das dívidas oriundas principalmente do cartão de crédito, Maiévira recomenda aos jovens que estão passando por situação semelhante e aos que começam a entrar no mercado de trabalho. “A lição é: nunca comprometa sua renda com uma dívida que consome metade do seu salário. Daqui pra frente é gastar só com o essencial. Evitar prestações, e quando for comprar, comprar à vista”, diz ela em tom de conselho.

“Imensa bola de neve”

Morisjance de Sousa, 21 anos, atualmente divide seu tempo entre os estudos na UFPI e o trabalho como assistente administrativo. Sua renda é destinada para gastos domésticos, despesas com a universidade e uma parte para o lazer. O jovem conta que começou a se endividar no período em que ficou desempregado e possuía cartão de crédito. “Usei [o cartão] indistintamente e não me dei conta dos elevados juros. Tive um desajuste nas finanças devido à perda de um emprego na época e isso tornou-se a primeira ‘bolinha’ desta imensa bola de neve”, relata o estudante.

Para Morisjance, a partir de agora, reeducação financeira é o que importa. Segundo ele, o lema é “trabalhar com planilha, planejamento e prudência”.

“Atualmente me encontro em um processo de reequilíbrio das minhas contas. O aprendizado que fica é que, até mesmo em algo prazeroso, como comprar, deve-se fazer de forma prudente e planejada. Não é por ter uma oferta de crédito que deve-se esvaziá-lo de maneira grotesca e sem sabedoria”

Morisjance de Sousa, 21 anos

Do consumo ao endividamento

Ariane Martins, mestra em Psicologia, sublinha que as diferentes faixas etárias se endividam por motivos semelhantes. Os mais jovens, porém, merecem atenção. “É mais comum que eles sejam impulsivos e vulneráveis às influências dos padrões de consumo e dos grupos, bem como da mídia”, explica ela.

De acordo com pesquisas da CNDL e do SPC Brasil, mais de 30% da população brasileira quase nunca avalia se realmente precisa de um produto antes de comprar. O índice é maior nas classes C, D e E. Já para 45% dos entrevistados, é difícil resistir a promoções, o que os conduz a comprar mais do que planejaram. Nesses casos, a real necessidade de consumo ou a capacidade financeira são ignoradas e dão lugar ao comportamento exagerado.

“Muitas pessoas não calculam as consequências do consumo desenfreado. Alguns jovens, pela pouca idade e imaturidade, agem de forma impulsiva e pensam somente depois que fazem as contas”

Ariane Martins, psicóloga

Especialista aposta na educação financeira

“Eu nunca ouvi um jovem falar em educação financeira”. A constatação é da business coaching e especialista em Gestão Estratégica de Pessoas Marielle Baía. Para a consultora, a maioria dos pais e a escola não preparam as crianças para gerenciar sua vida financeira. No Brasil, somente em 2018, o governo federal decidiu anunciar a educação financeira como conteúdo obrigatório da Base Nacional Comum Curricular.

“A maioria dos jovens já verbaliza consumismo no primeiro ganho e muitas vezes já acumula despesas para meses subsequentes. Esse hábito vem da vivência, a forma como aprendeu a lidar com dinheiro”

Marielle Baía, consultora na área de educação financeira

 Pesquisa revela detalhes sobre hábitos financeiros dos brasileiros. Fonte: CNDL e SPC Serasa – Via: Estadão

Marielle lembra que a educação financeira não deve estar presente na vida somente dos já endividados. O ideal, defende ela, é ser introduzido ao assunto o mais cedo possível. “Adeque seu padrão de vida ao que encontrou no diagnóstico e comece a tomar as decisões baseadas no orçamento vigente, a maioria da população não tem consciência do que gasta”, completa ela, incluído também aqueles que já enfrentam problemas financeiras e podem agir para contornar a situação.

Confira a seguir dicas de como gerenciar sua relação com os gastos:

Veja também: Jovens que trabalham e estudam relatam como rotina afeta a saúde mental

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Laboratório Avançado II: Webjornalismo – 2019.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira.

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