Você conhece seu alimento?

Os agrotóxicos estão presentes nas mãos de quem produz e consome

Por Bárbara Marreiros e Daline Ribeiro

Até abril deste ano o Ministério da Agricultura liberou o uso de 152 novos agrotóxicos. Dos registros concedidos no Diário Oficial, alguns deles foram classificados pela Anvisa como Extremamente Tóxico. Todos esses ingredientes já eram comercializados no país, mas agora esses princípios ativos podem ser utilizados na produção de outros agrotóxicos. A indústria alimentícia passou por diversas modificações ao longo dos anos, mas é necessário pensar em sua dimensão política e como as decisões tomadas pelos representantes afetam a vida da população.

O Ministério da Agricultura utiliza o termo “defensivos agrícolas” em muitos momentos e alegam que o uso não prejudica a saúde da população e que melhora as condições de trabalho e geração de renda para os pequenos agricultores. O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), apontou, de acordo com os dados de 2009 a 2011 que não houve extrapolação da Ingestão Diária Aceitável.

Ou seja, o risco existe, é eminente e é conhecido pelas autoridades, mesmo assim é  considerado “aceitável” e não é descartado já que existem diversas formas de exposição, como o contato com a pele e ingestão de outros alimentos que não são  monitorados pelo PARA, água potável, carnes, leite e ovos. No próprio site da Anvisa eles fazem recomendações de como consumir produtos de origem orgânica ou agroecológica que costumam receber “menor carga de agroquímicos”.

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Em 2005 foram registrados 91 agrotóxicos no Brasil, em 2018 o número subiu para 450, em que apenas 52 são considerados de baixa toxidade.

É cientificamente comprovado a causa de doenças e mortes de intoxicação por agrotóxicos. Segundo o Datasus, no Brasil, morrem em média 790 pessoas por ano intoxicadas pela exposição dos venenos.

A falta de capacitação dos trabalhadores rurais só aumenta o risco de contaminação direta durante a aplicação do veneno. O médico e auditor fiscal do Trabalho, Luís Lima, faz a relação de como a negligência quanto à saúde e segurança desses trabalhadores está ligada a mortes e acidentes de trabalho. A Organização Internacional do Trabalho considera a Agricultura como um dos setores mais perigosos, junto com a Construção Civil e Mineração.

“Na Itália para a pessoa aplicar agrotóxico, ela tem que ter o nível médio completo e conhecer quais são esses produtos químicos, aqui quanto mais analfabeto melhor. Como não conhece, não vai poder discutir. Coloca a mão, passa no corpo, pega na marmita sem lavar a mão. No Brasil não existe uma verdadeira política de trabalho decente. A empresa não tem visão de cuidar do trabalhador”, afirma Luís Lima.

Segundo a OSHA (Occupational Safety and Health Administration) as empresas que investem em Segurança do Trabalho reduzem em até 40% o número de acidentes e doenças ocupacionais. Outro levantamento realizado, dessa vez pelo Serviço Social da Indústria (SESI), durante 2015 e 2016 com 500 médias e grandes empresas, esse investimento em segurança reduz em 48% as faltas ao trabalho; aumenta a produtividade em 43,6% e ainda reduz os custos em 34,8%. Luís ainda destaca como o Brasil, apesar das condições atuais, ainda é o mais desenvolvido em relação a essas questões do que outros países da América do Sul, onde a situação é mais precária.

Foto: Daline Ribeiro/Portal Luneta.

Segundo o Dossiê da ABRASCO a retórica é um fator que reforça o uso dos venenos. Pois, ao invés, de se chamar “agrotóxicos” a indústria do agronegócio e as pessoas que possuem interesses na comercialização do produto e utilizam termos genéricos, como: defensivos agrícolas, pesticidas, praguicidas, biocidas, agroquímicos, produtos fitofarmacêuticos ou produtos fitossanitários. Assim, mudando o sentido e a forma de tratar sobre o assunto. Com um discurso que gira em torno do progresso, crescimento, rentabilidade criou-se uma cortina sobre o verdadeiro impacto dessas substâncias e suas possíveis lesões aos consumidores e produtores, que são:

·  Problemas neurológicos, motores e mentais

·  Distúrbios de comportamento

·  Problemas reprodutivos e na produção de hormônios sexuais

· Distúrbios hormonais diversos (efeitos comprovados nas glândulas hipófise, tireoide, suprarrenais, mamas, ovários e testículos)

·  Menor fertilidade

·  Baixa imunidade

·  Puberdade precoce

·  Má formação fetal

·  Aborto

·  Doença de Parkinson

·  Endometriose

·  Atrofia dos testículos

·  Câncer de diversos tipos

Fonte: Dossiê Abrasco, 2015.

Entre a lista de agrotóxicos que foram liberados no Brasil está o Sulfoxaflor, que já foi acusado de exterminar as abelhas nos EUA. Os mais tóxicos são o Metomil e o Imazetapir, que são princípios ativos, ou seja, serão utilizados na produção de agrotóxicos comercializados a produtores rurais. Uma parte dos princípios ativos usados no Brasil já foram proibidos na Europa.

Então, porque está sendo liberado, de forma acelerada, o uso deles na agricultura?  

De acordo com a Professora Doutora Valéria Silva, idealizadora da Feira de Base Agroecológica da UFPI, a liberação dos agrotóxicos é uma estratégica política. “As empresas que produzem esses venenos, como a BAYER, precisam vender. Elas conseguem financiando campanhas eleitorais de deputados ou presidentes que quando eleitos, facilitem a liberação e entrada desses produtos no mercado. É uma disputa por dinheiro”, afirma.

Segundo a professora Valéria, impacto do agronegócio no Piauí, principalmente no interior do estado acontece das seguintes formas:

  • Grandes segmentos da monocultura nacional que participam da bancada ruralista se apropriam de grandes extensões de terra, antes devoluta já que o Estado nunca fez a demarcação de terras.
  • A compra de terra dos agricultores; as famílias perdem suas terras.
  • Os filhos desses agricultores ficam expropriados. A única saída dos jovens é a venda da sua força de trabalho para o agronegócio, onde acontece a proletarização dos agricultores.
  • A precarização do trabalho: trabalho terceirizado, sem contratação garantido ou especificação profissional.
  • Mudança da dinâmica cultural das cidades que recebem essas empresas.

Acesse a lista dos agrotóxicos liberados no Piauí, organizada pela ADAPI Associação de Defesa Agropecuária do Piauí.

A água da chuva que banha as serras e chapadas, onde estão localizadas as plantações de monocultura, desce para os brejos e córregos contaminadas e afetam os pomares e animais “os pomares de Sebastião Leal que ficavam próximo dos brejo morreram todos. Pomares de laranja, abacaxi e abacate. Pomares das famílias”, diz.

Comer é um ato político

Acordar, escovar os dentes, tomar café, realizar atividades do cotidiano, almoçar e jantar. Este pode ser o resumo da rotina de uma boa parte da população, entretanto 821 milhões de pessoas passam fome no mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Para pensar em quem tem acesso a alimentação é necessário não apenas questionar a origem desse alimento, mas também em quem não tem acesso a ele. São questionamentos que fazem parte de todo um quadro.

Crises econômicas, conflitos armados e fenômenos naturais são apontados como principais causas do aumento da miséria e fome, apesar de já existirem pesquisas como a que foi feita pela Universidade Estadual de Washington (EUA), Agricultura Orgânica para o Século 21, que aponta como é possível alimentar toda a população através de agricultura orgânica.

Porém, ela enfrenta dificuldades para conseguir espaço no grande mercado “A agricultura familiar vem sendo produzida ao longo do século como inviável, algo sem futuro. Produzem isso com o desfinanciamento, com injeção dos venenos na agricultura familiar, com a não proteção de políticas públicas para a agricultores e agricultoras”, completa Valéria.

Por outro lado, as pessoas passaram a se interessar mais pela agroecologia. O mercado de produtos agroecológico está aumentando “as pessoas estão convencidas que junto com seu almoço, lanche ou jantar não dá mais para tomar um cálice de veneno junto. Estão entendendo a gravidade política, social, ambiental e antropológica do que está acontecendo.” finaliza professora Valéria

“Eu não nunca fui de mexer com veneno”, afirma Teresinha Pereira da Silva, conhecida carinhosamente como Dona Tetê, horticultora do Povoado Alegria, localizado na Zona Rural de Teresina. Hoje ela cultiva alho poró, beterraba, cenoura, cebolinha, coentro, alface, couve, rúcula, hortelã, manjericão sem veneno.

Dona Tetê em sua banca na Feira UFPI. Foto: Bárbara Marreiros/Portal Luneta.

Através da sua participação na Feira de Base Agroecológica da UFPI, Dona Tetê ampliou seu conhecimento sobre cultivo orgânico. Ela ressalta que é uma garantia para saúde dela e das mais de 20 famílias que trabalham na horta, além de poder comer e levar para outras pessoas um produto limpo. “Não tem praga, mas quando eu vejo algum pé doente já tiro ele do canteiro, para não passar pros outros”.

Preocupar-se com o alimento que está em sua mesa já é a realidade de muitas famílias brasileiras. A nutricionista Marcela Almeida afirma que seus pacientes sempre questionam a qualidade e a pureza do que é consumido, já que com a industrialização do ramo alimentício se tornou mais difícil consumir alimentos limpos.

Para prescrever uma alimentação pensando em todos os malefícios que os produtos industrializados possam trazer a saúde do indivíduo, é necessário partir da perspectiva, do mais natural possível; menos produtos embalados, semi-prontos ou congelados, pois quanto maior a vida útil de um alimento (validade), maior seu malefício a saúde.

Produtos sem agrotóxicos comercializados na Feira UFPI. Foto: Daline Ribeiro/Portal Luneta.

“Recomendo até mesmo o cultivo em casa, caso a pessoa tenha o espaço, plantar ervas já seria um começo, pois assim ela poderá utilizar temperos frescos e naturais, sem a necessidade de uso de temperos e molhos industrializados”, disse Marcela.

A nutricionista afirma ainda que a alternativa é buscar alimentos orgânicos, com o selo de garantia de orgânico, assim tendo a real credibilidade de que seu cultivo não foi utilizado nenhum tipo de produto para acelerar ou manter a colheita.  Ela completa que esse tipo de alimento é de mais fácil acesso em supermercados ou feiras de bairro, em que é o microprodutor que cultiva.

Por todo esse contexto de descaso com a saúde da população, com a preservação da fauna e flora brasileira, a agroecologia surge e é abraçada por muitos não só por ter como resultado apenas o consumo de alimentos sem produtos químicos nocivos à saúde, mas também por produzir impacto social positivo na vida de quem produz, de quem consome e na saúde do planeta.   

Não sabe onde encontrar orgânicos no Brasil? Olha o mapa dos orgânicos.


A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Laboratório Avançado II: Webjornalismo – 2019.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira.

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