Inem! Meu não é diferente!

Piuiês é motivo de orgulho e muita risada

Repórteres: Brendo Veras, Herbet Brandão, Ribamar Mouzinho e Sérgio Tomaz

Pouca importa o jeito de falar das pessoas. Na verdade importa, importa muito! Se para os peixes a vida sem água é impossível, para os homens a existência como a conhecemos estaria comprometida sem a capacidade da linguagem.

Caso tu num saiba, o povo do Piauí é o único do mundo que já acorda fazendo careta. Por aqui, até o “trejeito” da negada, fala. Retraindo os beiços e fechando os “zói”, olha para o nascer do sol, já reclamando. Com um “eita sol de lascar” deixa claro que um tal “BR-O-BRÓ”, num tem piedade e queima até a pupila dos “zói durnego”.  Esse jeitinho único de dizer que a vida “num tá lá essas coisas”, muitas vezes é visto como alvo de mangação por ai e até mesmo por aqui, mas o que se escuta é poesia. A poesia da fala de uma região que esquenta, que seca, que sofre. Mas, o mesmo rosto que leva a reclamação do sol que arde, é capaz de todos os dias rir das piadas na praça, na calçada, na mesa do baralho no bar da esquina. O piuaiês é curioso. Por aqui idoso é seu minino e garoto, menino véi.

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Dentro do Português no Piauí, o povo fala do seu jeito! ( Foto: Breno Veras/ Portal Luneta) 

O “tédoido”, o “armaria”, o “mermã”, o “ineeem”, faz sentido na boca do piauiense e quem não entendeu, certamente por aqui não nasceu. O seu Raimundo e seu Domingos, sentados na praça do Morada Nova, lá na zona sul de Teresina, jogam cunversa fora, olhando uma briga de um cachorro com um “bucado” de pombo. Com as duas mãos nas “junto do juêi”, seu Domingos diz que as chuvas dos últimos dias fez aparecer umas dores no corpo. Com um “renquem” e concordando com o castigo da natureza sobre seu amigo. O seu Raimundo já cumeça se reclamar:

– “Siô, sempre que o céu fica com esses mormaços me dá umas dor nas junta. Por falar em dor nas junta, eu tive que pegar dois ônibus e rapar, quando fui pegar o segundo tive que “meter o pé na carreira” para num perder. Oh marreu tenho raiva desse transporte. tive que ir lá no hospital da federal, no “inferno da pedra”.

– “Rapaaaz! Pois é sô, eu tô quais cancudo. Ainda vem essas dor nas junta par terminar de me ingembrar. Tô com 69 anos e nunca conseguie meu apusento. E oia que eu nasci no tempo do bumba.”

“Ota” que tava se reclamando da vida bem pertim do seu Raimundo e do seu domingos, era Estela, puxando um carrim de supermercado, ela vendia café para os táxistas. Vendendo um bolo frito para seu Domingos, a fogoió do café, dizia que achava perda de tempo um monte de macho ficar de cara pra cima, que ném jumento, esperando um passageiro aparecer. “Oh gente mal arrumada”, dizia ela.

– “Eu acordo todo dia 4 horas da madrugada pra fritar esses bolos. Tô aqui também toda escambichada. Meus fi, tão lá dormindo enquanto a jumenta veia aqui, revira esse morada nova, puxando esse carro. Esses meninos não criam jeito de gente. Má mermo assim, tenho meus trocados pra comprar meu arôiz. Até mais seu menino, tô indo bem ali”, comenta.

 O piauiês no mundo científico

O Piauí é rico até na fala da sua gente. E por aqui o povo é humilde e inocente. Vergonha de dizer um não diferente? INEM! Runcum! Esse jogo de palavras despretensiosa do dia a dia é tão legal que tem cientista querendo entender, oh! Sim, o lingüista Marcelo Alessandro, estuda o regionalismo piauiense na Universidade Federal do Piauí. O caba é inteligente e disse que a ciência tem que pensar direito ao estudar as expressões de cada região. “Não obstante a importância cultural dessas expressões que marcam a identidade de um povo, é importante, do ponto de vista científico, ter uma cautela quanto a dizer que determinada palavra ou expressão é exatamente deste ou daquele lugar porque isso precisaria ser confirmado por pesquisas científicas que dessem conta de levantar ocorrências a partir de uma seleção de informantes e, a partir disso, dizer com um pouco mais de certeza se esta ou aquela expressão, de fato, ocorre mais neste ou naquele outro lugar. “

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  Dirceu Andrade com as suas marmotas em cima do palco (Foto: Reprodução/ Google Imagens)

No humor o piauiês arranca risada fácil, fácil. E quem usa isso como arma, é o gaiato Dirceu Andrade. “Aprendi a fazer humor, justamente vendo as situações costumeiras do dia a dia. Meu avó era um humorista sem saber.

O Vovô era comerciante, no mercado de Piripiri, mas ele também tinha outra atividade, era caçador. E numa dessas caçadas, né! Matou uma onça, uma suçuarana, até crescida. Toda véa que vinha do mercado de Piripiri, quando olhava tomava um susto. E a vovô la em casa dizia: oh vea besta! Vou dá cabo na ota também. perguntei pro meu avô, como ele matou a onça. ele disse: óia, eu ravinha descendo da espera, com a espingarda descartuchada e tudo, mode num ter um probrema né. quando ele vêi assim no meu rumo, vinha de xôto, levantando poeira, marreu cartuchei a espingarda, papoquei fogo nela, ela vêi cai esbarrar bem aqui. Caiu biquicim. Vovô mais se a espingarda falhar? Se bater catolê, num tem probrema, com a mão esquerda tu segura no grugrimim dela. Ai com a mão direita tu passa cocô na cara dela, mas tu espalha bem. Mas vovô onde eu vou achar cocô? Ele disse: na hora aparece!”

Fazendo careta pro sol ou mangando dusoto, o piauiense é singular até no jeito de falar. Quem nasceu por aqui, na verdade nem repara no seu jeito de articular as palavras. Mas, se tudo que se fala faz sentido, o que importa é que todo fica entendido. “Respeita meu INEM”!

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(Foto: Reprodução/ Google Imagens)

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