Um sim para o recomeço

No Piauí, quase 500 pessoas esperam na fila por uma doação de órgão. O sim de uma família pode salvar vidas.

Repórteres: Andréa Patrícia, Lucas Albano & Mariana Silva

A equipe médica corre, um novo paciente é admitido no setor de trauma. O corpo ensanguentado e desacordado poderia assustar algumas pessoas, mas é rotina em um pronto atendimento. A vítima socorrida sofreu um acidente de moto e foi arremessada longe. Os médicos iniciam os cuidados, observam batimentos cardíacos e começam a suturar os ferimentos.

Ao examinar o paciente, o neurologista observa que suas pupilas estão fixas e dilatadas, um grande indicio para morte cerebral. Os cuidados param e o paciente é enviado para realizar um eletroencefalograma, exame utilizado para monitorar atividades cerebrais. Mas nada aparece no monitor. Dali há seis horas o exame é repetido e a confirmação chega. O paciente está morto!

Porém nesse caso o paciente não morreu, pelo contrário, ele está apto para salvar outras vidas. Esse caso se enquadra em um típico perfil de doador de órgão. Um adulto saudável, segundo informações da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), pode doar vários órgãos vitais, entre eles estão medula óssea, córneas, pulmões, coração rins, fígado e pâncreas. Segundo a Central de Transplantes do Piauí, a doação é gratuita e os custos são cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Diariamente a medicina avança e vários outras partes do corpo humano estão sendo transplantados, como a pele, válvulas, músculos, ossos, veias e artérias. Para realizar esse procedimento, de acordo com o Ministério da Saúde, o paciente assistido em UTI deve se enquadrar como morte encefálica, ou seja, morte das células do Sistema Nervoso Central, que determina a interrupção da irrigação sanguínea ao cérebro. O quadro é irreversível e definitivo, como o caso do exemplo acima.

Mas apenas se enquadrar nessa categoria não basta para ser um doador.  É necessário também que a família do paciente autorize que a equipe médica faça a retirada dos órgãos. Então, é estritamente necessário que em vida cada doador comunique sua família e amigos da decisão.  Um único doador pode salvar a vida de mais de 10 pessoas. Após a morte encefálica a família é comunicada e posteriormente um médico lhe questiona se há o desejo de doar os órgãos.

“Para que o desejo de doar seja efetivado, a gente precisa dizer em casa para a família que, se acontecer alguma coisa, ela tem interesse de ser doador. Geralmente a família acata essa decisão quando a pessoa já manifestou interesse. Quando as pessoas não conversam sobre morte, quando essa conversa não acontece, a família fica em dúvida se doa ou não, se a pessoa gostaria ou não de que isso acontecesse. Então, a manifestação em vida tem que ser para família”, explica Ayla Calixto, coordenadora da Central de Transplantes do Piauí.

andrea 1 [
Ayla Calixto, coordenadora da Central de Transplantes do Piauí. (Foto: Lucas Albano/Portal Luneta)

Para Antônia Joceli, transplantada e presidente da Associação de Pacientes Renais do Piauí, o não das famílias está matando muita gente e, segundo ela, isso é causado pela falta de informação. “Eles acham que o corpo vai ficar mutilado, que se tirar as córneas os olhos ficarão esbugalhados, que vão deixar o corpo aberto, mas isso não acontece, tem todo um cuidado. Eu mesma tive a oportunidade de observar uns dois corpos. Eles abrem e mostram para família”, conta.

andrea 2
Antônia Joceli, presidente da Associação de Pacientes Renais do Piauí (Foto: Lucas Albano/Portal Luneta)

“Mas isso também não faz sentido porque tem muitas pessoas envolvidas, não tem como isso acontecer”, continua a transplantada. “Quando a equipe medica percebe que existe um potencial doador, faz o exame e após seis horas outra equipe o repete e analisam. Se ocorrer alguma mudança, aquele processo já é estagnado, porque houve uma diferença entre um exame e outro. Caso não haja alteração, se abre o protocolo de doação. É então que a família vai ser notificada”, esclarece.

Não precisa estar morto para doar órgãos. De acordo com o Ministério da Saúde, ainda em vida, qualquer pessoa pode doar rins, fígado, medula óssea e até o pulmão. Para que isso aconteça é necessário que se passe por procedimentos de validação e registro no cadastro de doadores na Central de Transplantes. A doação só pode ocorrer em parentes de até quarto grau ou com autorização judicial, sendo que a medula óssea é uma exceção a essa regra.

No Piauí são realizados dois tipos de transplantes, o renal e o de córneas. O fato ocorre, de acordo com a Central de Transplantes, pois não há equipes médicas nem hospitais capacitados no Estado para a realização dos procedimentos. Uma equipe de um hospital particular da Capital chegou a realizar transplante de coração por vários anos, mas a equipe de médicos se desfez e o hospital perdeu a autorização do Ministério da Saúde. “Aqui no Piauí nós só temos a equipe do HGV que está fazendo transplante. No momento, pelo SUS nós só fazemos transplantes de rim e córnea”, comenta Ayla Calixto, coordenadora da Central de Transplantes do Piauí.

O Estado enfrenta problemas quanto ao número de doações. A principal causa da não realização de transplantes é a recusa de familiares em permitir a doação. De janeiro até setembro deste ano apenas 11 pessoas doaram órgãos no Estado. O número é pequeno se comparado com a lista de espera, até setembro deste ano a fila era composta por 482 pessoas. De acordo com a Central de Transplantes do Piauí, hoje em dia um paciente leva em média dois anos para receber um órgão, mas muitas vezes o paciente não tem esse tempo, pois a doença pode levar a morte.

A alternativa que resta é viajar para outro estado com a esperança de que no local a fila ande mais rápido. É o caso de Gabriela Noronha. A turistologa fez o procedimento em outro estado pois no Piauí não é realizado o transplante de fígado. “Fiquei três anos e meio para descobrir o que eu tinha, um ano para entrar na fila e mais quatro anos de fila e por fim transplante”, conta Gabriela. “A gente deve muito ao Ceará. Porque quase todas as pessoas que têm problemas hepáticos e que tem que fazer transplantes não aguentam ficar na fila pois é muito longa. O Ceará é um dos estados do Nordeste que mais doa, por isso que tem esse avanço que tem salvo muitos piauienses, maranhenses, potiguar”, continua.

Após o transplante de fígado, Gabriela Noronha conheceu um novo amor: o esporte. Através dele, a turistologa conquistou sua primeira medalha na Olimpíada Sul-Americana dos Transplantados, na Argentina. “Foi a minha primeira competição e eu chorei. Ganhei duas medalhas de ouro, uma na natação e outra na corrida 5km. Ganhei também bronze em outra modalidade da natação. A palavra que eu posso dizer é gratidão. Gratidão de poder estar correndo, gratidão de poder estar respirando e poder estar ajudando”, relata Gabriela emocionada pela conquista.

“A gente tem que ter muito cuidado para não começar a se vitimizar. Transplantado pode e deve fazer exercício físico. O esporte ajuda na qualidade de vida, ele ajuda na saúde mental e física. Então, além do medicamento, todo transplantado deve fazer algum tipo de atividade física”, continua.

A atleta conta ainda que entrou no esporte como forma de viver a vida da melhor forma possível.  “A forma que eu tenho de agradecer à família, que no momento de dor disse sim, é viver intensamente e de forma sadia e respeitosa, podendo ajudar cada dia mais quem está passando pelo que eu passei. Eu tiver a oportunidade de fazer um transplante e isso me deu uma nova expectativa de vida. Eu sou uma pessoa melhor do que antes”, finaliza.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.