Caminhos por Teresina: o viver no trânsito da cidade

A realidade da mobilidade urbana na capital

Repórteres: Marcos Vieira, Giovanna Portela, Francilmar Vieira e Leonardo Mendes

Portal Luneta circulou pelas ruas de Teresina. No entanto, a nossa viagem acontece através dos olhares e das experiências de personagens, entre um ponto a outro da cidade, seja como ciclista, usuário de transporte público ou privado.

“Podemos considerar democrático o acesso aos locais da cidade?” Esse questionamento nos motivou a buscar compreender como a mobilidade urbana reflete as desigualdades sociais, temas já tratados anteriormente, mas por outras óticas, como em “A Realidade dos Ciclistas em Teresina” e O “novo” velho jeito de pegar ônibus em Teresina.

No entanto, reconstruímos essa jornada e produzimos três perfis. O objetivo é apresentar outras visões, realidades e vontades que ocupam boa parte da rotina de qualquer cidadão, inclusive a sua. Assim, trazemos as histórias de Andrê Nascimento (ciclista), Karol Oliveira (usuária de transporte público – ônibus) e Jackson Coelho (usuário de transporte particular – carro)

Caminhos por Teresina: bicicleta

Nesta primeira imersão jornalística, tratamos sobre o dia-a-dia de um ciclista pela capital piauiense e os paradoxos entre um transporte visto como saudável e as dificuldades de acesso a uma cidade com apenas 30 km de ciclovias.

Na rodada da vez conhecemos o Andrê, 27, trabalha para um dos grandes portais de notícia da Capital. É formado há mais de um ano em jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e por dia percorre quase 20 km de bicicleta, indo de casa ao trabalho, à padaria, ao hospital e até aos shoppings. Suas despesas com o transporte não ultrapassam os R$ 40 mensais.

Andrê Nascimento, há mais de 4 anos como ciclista (Foto: Marcos Vieira/Portal Luneta)

Além disso, Andrê deslocou-se durante boa parte do seu curso, da casa à universidade, em duas rodas. A inspiração para mudar de transporte veio da família. O pai é ciclista a nível profissional, e segundo ele, já percorreu mais de 5.000 mil quilômetros em um mês.

A bicicleta de Andrê veio dessas indicações: variando o custo benefício do produto e a busca por outro meio de transporte.  De início, o projeto em mente era de substituição plena dos demais veículos (principalmente ônibus) para uma vida de ciclista. No entanto, o hábito para usá-la como transporte era comprometida pela inexperiência em conhecer o que era importante para a locomoção quilométricas.

Andrê diz que o ciclismo urbano lhe garantiu um acesso maior à cidade (Foto: Marcos Vieira/Portal Luneta)

“Eu comecei de forma esporádica, de vez em quando eu ia de bike. E aí esse de vez em quando foi aumentando a frequência. Mas no começo tudo vira uma dificuldade: eu vou chegar lá suado. Mas no fim das contas, até de ônibus eu chegava suado, tá ligado?!”, relata.

Apesar disso, queixando-se menos do cansaço e mais do penoso esforço físico para pedalar, o nosso personagem afirma: “a cidade ficou muito maior para mim”. A afirmação positiva, segundo ele, vem porque a bike tornou sua rotina mais flexível, podendo explorar novas rota. “Eu passava 2 horas para chegar onde estudo, porque o transporte não tinha rota direta. De bicicleta eu fazia em 15 minutos”.

Ainda sim, a cidade ainda mostrou seus riscos para o ciclista. Pode parecer diferente para aqueles que moram em Teresina e pensam que o binômio “roubos & calor” impera na hora de excluir o veículo de duas rodas. No entanto, o maior obstáculo encontrado hoje é o desrespeito no trânsito, via de regra, praticada por veículos maiores contra os menores.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem em média 32 ciclistas internados por dia devido acidentes de trânsito. O número revela uma situação em que as demandas surgem, mas o binômio “estrutura & educação no trânsito” não surtem tamanho efeito.

Andrê ainda nos conta que, com a experiência, passou a tomar alguns cuidados. Entre eles, evitar entrar em cruzamentos de ruas sem antes verificar se dali vem algum automóvel, ou reduzir sempre a velocidade quando alguém faz alguma conversão próximo dele. “O motorista teresinense é muito imprevisível. É difícil saber quando vai dobrar, parar ou continuar”, relata.

Foto: Marcos Vieira/Portal Luneta

Para ele, Teresina é uma caótica disputa de espaço, onde sobrevive o mais apto e forte: “é como se a cidade fosse pequena para todos, onde quem é mais fraco tende a ser engolido”.  

A experiência com o ciclismo urbano trouxe para nosso entrevistado uma série de adaptações em seus hábitos e percursos. Manter-se um safo em meio à caótica estrutura viária da cidade e o potente calor que impera em Teresina é uma missão diária para os ciclistas da cidade.

Como esquivar do tórrido calor pelas avenidas? Como sobreviver aos trajetos necessários entre os pesados carros e as ligeiras motos que ocupam as estradas aos milhares? Andrê usando de sua sagacidade então indaga a si próprio sobre essas questões e nos conta um pouco dos resultados.

“Quem sabe melhor como lidar com o calor nesse mundo? Os povos do deserto obviamente. É de lá que vem a inspiração pra usar isso aqui.”

Foto: Marcos Vieira/Portal Luneta

Andrê mostra como se proteger do sol com um tecido de design Árabe chamado ‘Shemag’ envolto no seu rosto descendo levemente pelo pescoço. O pano protege o rosto da ação direta do sol na pele. Além disso, o shemag ventila constantemente a superfície que  toca. “Quando falamos em andar de bicicleta em Teresina a primeira questão é sempre o calor, porque o calor daqui é folclórico.

Eu sou uma figura na rua agora. Eu molho (O shemag), boto dentro d’água, encharco, aí eu amarro aqui, e aí vou de manga comprida assim desse jeito. Aí é foda, mas refrigera muito.Refrigera muito mesmo e eu não posso pegar muito sol e esse negócio de passar protetor solar também é foda.  A galera as vezes me pergunta no trabalho, sabe? Me vê saindo ‘ei o que é isso?’ mas na maioria das vezes eu percebo que as pessoas assim que vêem elas logo entendem.”

Notamos que existe uma tendência urbanística em Teresina, disposta sobre o projeto diretor de mobilidade para solução de tráfego e trânsito, em Teresina, que prioriza o desenvolvimento de rotas rodoviárias em detrimento da diminuição das ciclofaixas e ciclovias.

As soluções de mobilidade urbana, para o benefício dos ciclistas, timidamente tem ganhado expressividade, principalmente, dentro das instituições de educação onde é formado o pensamento crítico sobre a cidade. A Universidade Federal do Piauí, por exemplo, iniciou esse ano as obras para a construção de uma ciclovia que pretende interligar todo o campus. Diferente dessa situação, as ciclovias já existentes, algumas delas, como o já citado caso da Avenida  Presidente Kennedy, perderam seu espaço em função da construção dos terminais de ônibus, porém, ainda existem ciclofaixas como nas avenidas Raul Lopes e Marechal Castelo Branco, que não configuram rotas de trabalho mas espaços onde existe a exclusividade para o ciclismo.

Caminhos por Teresina: Automóvel

Em outra abordagem, mergulhamos na história de quem usa o transporte privado ou particular, e considera essa a melhor opção, quando se alia tempo e comodidade no processo de mobilidade urbana.  Nesse sentido, fazemos um contraponto com o transporte coletivo.

Nessa viagem, nosso personagem é o jornalista Jackson Coelho, 40, e que dirige seu próprio carro pelas ruas de Teresina há pelo menos 3 anos e meio. Ele é uma das mais de 200 mil pessoas em Teresina que abriram mão do transporte coletivo e utilizam o próprio carro para se deslocar na capital, de acordo com um estudo da Confederação Nacional dos Municípios publicado em julho de 2018, com base em um levantamento feito pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).

Trecho da Av. Henry Wall de Carvalho, pela manhã. (Foto: Francilmar Vieira/Portal Luneta)

Por dia, o jornalista percorre entre 12 a 15 km, numa rota que inclui o trajeto de casa ao trabalho, comércio e igreja. As vias mais utilizadas por ele são as avenidas Henry Wall de Carvalho, Barão de Gurguéia, Walter Alencar e Maranhão. Muitas vezes o congestionamento dessas vias é um dos desafios que ele enfrenta, mas aponta outros problemas para quem dirige em Teresina. “O principal deles é a grande quantidade de semáforos que a gente encontra e também a falta de locais adequados para estacionar”, assegura.

Jornalista Jackson Coelho. (Foto: Francilmar Vieira/Portal Luneta)

Estrategicamente o jornalista utiliza aplicativos escolhendo rotas alternativas para otimizar o tempo e romper os desafios no trânsito. Não obstante os problemas, incluindo o preço exorbitante da gasolina, ele ressalta que o transporte individual proporciona uma multitude de vantagens em relação a outras modalidades de transporte, notadamente, uma maior flexibilidade tanto em termos de horário como de trajeto, além da segurança. “Você sai de casa com a família, e se sente mais seguro no seu carro pra poder ir e voltar na hora que quer, não vai depender de ônibus nem fazer trajetos em horários impróprios”.

A construção de viadutos foi apontada pelo jornalista, como a saída para desafogar e dar mais fluidez ao trânsito da capital piauiense. Quando indagado sobre a democratização do trânsito de Teresina, nosso personagem é enfático em dizer que o município ainda está longe disso e ressalta porque. “O pedestre tem dificuldade, o motociclista também precisa de mais respeito, e o ciclista, esse nem se fala, esse não tem opção”.

Recentemente, Jackson Coelho teve a oportunidade de utilizar o metrô na modalidade Veiculo Leves sobre Trilhos (VLT) e aprovou esse tipo de transporte. “A experiência do metrô foi muito boa. Ele faz apenas uma rota que é do centro a zona sudeste, região do grande Dirceu, e eu achei confortável, tranquila a viagem…, o ambiente é climatizado e seguro, porque existem policiais lá dentro”, ressalta.

Foto: Francilmar Vieira/Portal Luneta

O jornalista ainda defende a ampliação do serviço para beneficiar a população menos favorecida. “Se tivesse um metrô saindo da zona sul para o centro, da zona norte para o centro e da zona leste para o centro, com certeza a população ia ganhar muito, em tempo, agilidade, segurança e o preço da passagem que é muito menor”, conclui.

Como observamos na construção da história do nosso personagem, quando se trata de mobilidade urbana de Teresina, como imaginamos ser na maioria das capitais do Brasil, entre o particular e o coletivo há uma considerada distância a ser percorrida, pontuada de entraves, com um “preço a pagar”, muitas vezes sacrificial.

Caminhos por Teresina: Ônibus

Na parte final desse especial, tratamos dos dilemas vividos por uma usuária do transporte público urbano de Teresina que se desloca dessa forma desde a infância. Moradora de um bairro periférico que relata sobre uma rotina de cansaço e estresse e um acesso desestimulado à certas partes da cidade devido a escassez do transporte nos fins de semana.

Nossa personagem, Karoll Oliveira, 21, está em seu último período do curso de Jornalismo na Universidade Federal do Piauí, é membro de uma família de classe baixa, o que a levou a usar o transporte público desde que necessitou se locomover por grandes distâncias: assim que começou a frequentar a alfabetização.

“Eu fui uma criança que eu tive que amadurecer muito cedo porque eu cuidava do meu irmão. Então aos sete, oito anos eu já andava de ônibus por minha conta e levava meu irmão pequeno. A parte da catraca era legal e a cadeira alta também, eu lembro que até meus 10 anos eu passava por baixo da catraca porque eu era pequenininha e bem magrinha, mas depois que eu comecei a ter consciência das coisas, eu comecei a ver que eu não queria aquilo pra minha vida, eu queria muito um transporte meu”, relata.

Karoll Oliveira, formanda em Comunicação Social e usuária do sistema de transporte público de Teresina (Foto: Giovanna Portela/Portal Luneta)

Atualmente Karoll mora no bairro Santa Maria da Codipi (centro-norte de Teresina) pega cerca de 5 ônibus por dia entre sua casa, universidade e estágio. Acorda às 6h da manhã, sem tempo até pra tomar café. Entre a rotina estudantil, já chegou da universidade às 10h da noite em casa. Quando peço para que descreva o que é andar de ônibus em uma palavra ela diz Estresse sem nem piscar.

“Pra mim o momento mais estressante do meu dia é o dentro do ônibus. Porque eu pego muitos ônibus num dia e eu moro muito longe, tanto que na segunda-feira eu passei 3h30 indo da UFPI pra casa. É muito estressante. Às vezes até quando você vai sentada no melhor lugar, do lado da sombra, você se estressa, só porque você tem que ficar rodando, rodando. Aquele cheiro de todo mundo com todo mundo, o povo vem do sol… É estressante.”

A Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (STRANS) aponta que Teresina, capital piauiense, tenha cerca de 340 mil usuários de transporte público para apenas 130 linhas de ônibus. Estima-se, ainda, que o número possa ser maior devido a usuários de cidades vizinhas que viajam à capital em busca de serviços. A frota é insuficiente, o que obriga a superlotação dos veículos, que consequentemente leva a seu sucateamento. Situação que não é novidade para Karoll, que aponta o capitalismo como uma das razões da precariedade.

Foto: Giovanna Portela/Portal Luneta

“As empresas só pensam em lucrar, lucrar, lucrar e a parte da preocupação com conforto não existe. O que as empresas transpassam pra gente? É que elas trabalham pra minimizar os custos que eles vão ter com o transporte e fazer a gente se deslocar de um lugar pro outro de forma mais rápida. Mas eles esquecem da parte do conforto porque se eles tivessem preocupados, botariam mais ônibus e estariam conscientes de que as pessoas iriam sentadas. Eles esquecem de todos os efeitos que esse transtorno, esse estresse, esse calor, causam no psicológico das pessoas, que afeta diretamente a nossa produtividade, o nosso dia-a-dia, até a nossa própria relação com as pessoas. Elas não se preocupam com o nosso bem-estar”, aponta.

A rotina de cansaço físico e fadiga mental afeta a produtividade e limita oportunidades de crescimento pessoal, pois consome o tempo disponível para diversas atividades. Além disso, a precariedade da mobilidade através do transporte público também pode transformar esse deslocar em uma barreira para adentrar a vida social, como comenta Karoll: “Tem dia que eu chego em casa e tenho um monte de coisa pra estudar, mas por causa do ônibus eu chego tão estressada que eu só consigo dormir, não produzo nada. Eu já deixei de fazer um curso de inglês porque eu ia ter que pegar ônibus no sábado. Já deixei de sair com as minhas amigas… Por que que a Zona Leste ainda é um local que tem um poder aquisitivo muito alto e que não é muito frequentado por todo mundo? Porque você sair da Zona Norte pra Zona Leste de ônibus é uma demora horrível. No final de semana quase não tem ônibus. Então é por isso que a gente não sai, é por isso que a gente não frequenta esses lugares… não tem transporte! A gente tem até dinheiro pra gastar com comida, mas só de pensar no ônibus, no perigo , a gente já se desestimula”, conta.

Quando perguntada por pelo menos uma vantagem que o transporte público possa ter sobre os outros meios, Karoll pensa bastante antes de responder. “O valor”, finalmente responde. Como é estudante, tem o benefício da meia tarifa, que custa R$1,05. “A gente sabe que a gasolina é muito cara pra quem tem transporte. E por ser muito ruim, o serviço do ônibus, é barato”, analisa.

O direito ao transporte foi incluído no artigo 6º da Constituição Federal Brasileira em 2015 como um “direito e garantia fundamental“ ao cidadão, porém, como vimos ao longo de toda a entrevista, esse direito ainda está longe de ser assegurado de forma equivalente à demanda da população e de maneira constante. Nossa personagem acredita que apenas regulamentar já é um passo em direção ao avanço. “Uma vez que regulamenta você pode entrar com processos, você pode lutar por seu direito. Então pra mim representa um avanço, apesar de ainda ser meramente teórico já é um avanço porque possibilita que a gente cobre com mais afinco pela prática qualificada desse serviço que pra mim é uma responsabilidade social. Principalmente quando diz respeito às classes sociais mais baixas que são quem utilizam os transportes. Rico não usa ônibus…”, aponta Karoll.

Foto: Giovanna Oliveira/Portal Luneta

O motorista do ônibus, muitas vezes vilanizado por correr demais, por ignorar pontos de ônibus ou mesmo permitir que o veículo ultrapasse a capacidade máxima de passageiros, não é tão vilão aos olhos de nossa entrevistada, que vê o motorista como parte final de um sistema imprudente.  “Irresponsabilidade no trânsito existe, mas isso é muito da pressão psicológica que eles sofrem, porque eles tem que cumprir um horário. Eles tem um tempo determinado pra viajar, se for gente demais subindo no ônibus e ele não for rápido, ele não consegue parar pra descansar 10 minutos e já tem que fazer outra viagem porque se não é descontado do salário dele. Então essa pressão psicológica em cima do tempo faz com que eles viagem mais rápido. É sim uma irresponsabilidade, mas é gerada por uma outra irresponsabilidade maior. É uma cadeia.”

O espaço dentro do ônibus é uma extensão do espaço público, em teoria disponível de forma igualitária para convivência pacífica e respeitosa entre todos os cidadãos. No entanto, como em todo espaço público, a mulher precisa ter atenção redobrada, como explica Karoll: “Ser mulher dentro do ônibus é você estar sempre em alerta, você sempre tem que tá preocupada quem que tá atrás de você, quem tá do lado, como é a pessoa. Eu tenho medo às vezes quando eu vejo que é um homem que tá do meu lado, eu nem durmo. Eu fico acordada mesmo estando morrendo de sono. Você vive um eterno vigiar pra ver se tá tudo ok, quando na verdade a gente não devia ser assim. Eles acham é bom quando tá tão lotado que a mulher fica toda hora em contato com ele, é muito ruim porque eles não têm essa preocupação, eles não precisam ter, eles não tão nem aí e nós que temos que ficar atentas.”

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.2, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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