Racismo é racismo, inclusive quando praticado pelas forças de Segurança

Repórter: Édrian Santos

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No Piauí, cresce o número de homicídios cometidos por policiais (Foto: Édrian Santos/Portal Luneta)

A palavra “racismo” foi uma das mais pesquisadas no Google em 2017, no Brasil. Junto com “homofobia”, “LGBTQ+” e “feminismo”, a busca cresceu mais de 260% até meados de outubro do ano passado. A pesquisa resulta de um dossiê sobre o assunto “diversidade” na Internet e mostra o Piauí como um dos estados acima da média, quando o assunto aborda questões raciais no maior site de busca do mundo.

Ter a noção de que mais pessoas buscam saber sobre racismo é confortante para uma comunidade que sempre foi estigmatizada pela melanina. Por outro lado, a caminhada ainda é longa e expor abusos de cunho étnico, sobretudo contra a população negra, pode ser o início da mudança dessa situação. É por isso que o papel da imprensa em dar voz àqueles que ainda sentem que as correntes sociais ainda não foram rompidas é tão importante para que muitos digam adeus à chibata.

Não é preciso ir longe para achar atos racistas no Piauí. Recentemente, com repercussão nacional, a dentista Delzuíte Ribeiro fez uma publicação no Facebook contra o filho de uma ex-amiga, identificada como Thaiane Neves. Ambas moravam juntas em São Paulo, mas o tempo em que dividiram o mesmo teto não foi o suficiente para nutrir o mínimo de respeito pelo menos à criança de apenas um ano de idade.

Autoestima atingida

Mas nem todo racismo é explícito, até porque há leis contra a prática no Brasil. Mesmo assim, atos velados são suficientes para, no mínimo, afetar a autoestima de mais da metade da população de um país de 200 milhões de habitantes. É neste sentido que esta reportagem traz à tona situações constrangedoras vividas por dois jovens moradores de Teresina. O Luneta optou por resguardar a identidade das fontes por se tratarem de pessoas que ainda continuam em situação de vulnerabilidade.

Ambas as personagens foram alvo da discriminação daqueles que deveriam resguardar a integridade física e mental da população. A partir de agora, as histórias dos estudantes Marcos e José (nomes fictícios) se cruzam para exemplificarem a realidade de muitos brasileiros negros, vítimas do que se pode chamar de falta de preparo das forças de segurança pública, sobretudo no que diz respeito a uma abordagem mais humanitária.

Negro não pode morar na zona leste?

O primeiro fato é protagonizado por Marcos, natural de São Luís (MA), umas das capitais com a maior população de negros do país. Ele está no segundo período do curso de Comunicação Social (Jornalismo) na Universidade Federal do Piauí (UFPI) e, há um ano, é morador da principal cidade piauiense. Nos primeiros meses, residiu na zona Leste de Teresina, a conhecida região nobre.

Racismo praticado pelas forças de Segurança
Marcos tenta se politizar acerca de temáticas que envolvem o protagonismo negro (Foto: Édrian Santos/ Portal Luneta)

Foi justamente no bairro Ininga, onde a UFPI está localizada, que o estudante maranhense passou um dos piores momentos da vida. O sentimento de medo se misturava à impotência, já que reagir a uma abordagem policial poderia assinar uma sentença preconcebida de forças legitimadas socialmente à repressão. Naquela ocasião, em lembrança que jamais deve ser esquecida, tentar provar para dois policiais militares (PMs) que as chaves em mãos lhes pertenciam foi um tormento para Marcos.

“Por volta da meia noite, eu estava indo para a casa da minha tia. Foi aí que a minha porta emperrou. Quando eu estava forçando a porta para abri-la, passou uma viatura da PM e parou rapidamente. Mesmo eu explicando que eu morava ali e com a chave na mão, eles insistiram que eu tentava roubar a casa, como se eu fosse realmente um bandido. Eles tentaram me revistar, mas consegui chamar umas pessoas da rua para poder provar que realmente eu morava ali”, relatou o estudante.

Bem tranquilo na entrevista, Marcos contou que sempre tentou se politizar acerca de temáticas que envolvem o protagonismo negro. Aquela abordagem no Ininga foi a única prática explícita de racismo que viveu em Teresina, o que não exclui outros episódios na cidade natal dele, São Luís. Lá, a incidência foi bem maior e, pelo que recorda, houve situações nas famosas portas giratórias de bancos e ação da própria polícia maranhense contra o irmão.

Teresina violenta

Felizmente, Marcos não se deixou abater e continua focando nos estudos. Tal realidade, todavia, é diferente de outras centenas de piauienses negros, vítimas da criminalidade que assola do estado. Prova disso é que Teresina ainda se mantém no ranking das 50 cidades mais perigosas do mundo, segundo a ONG mexicana Segurança e Paz, cujo resultado foi divulgado em fevereiro de 2018, com dados de 2017.

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Teresina é uma das cidades mais violentas do mundo (Foto: Reprodução Édrian Santos/OitoMeia)

As informações sobre criminalidade citadas acima são refletidas diretamente no extermínio da população negra no Piauí. No ano passado, de um total de 649 assassinatos, 92% foram contra negros (81% contra pardos e 11% contra pretos). Em Teresina, cujo número de assassinatos chega a 315, no mesmo ano, a porcentagem aumenta e chega a 94% (80% contra pardos e 14% contra pretos). Tem muito homicídio acontecendo. E é o sangue afro-brasileiro que aumenta essa triste conta.

Lugar de negro é na zona sul?

Agora, quem relata à reportagem é o jovem José, estudante do 10º período do curso de Psicologia, na Universidade Estadual do Piauí (Uespi). A conversa com o entrevistado aconteceu no Centro de Ciências da Saúde (CCS) daquela instituição de ensino superior, espaço acadêmico visto por muitos e mais ainda por ele como um ambiente elitizado e predominantemente branco.

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História de José traz um perfil de um jovem negro que cresceu na favela (Foto: Édrian Santos/ Portal Luneta)

A história de José traz um perfil de um jovem negro que cresceu no que ele chama de favela, lá na comunidade do Parque Rodoviário, na zona Sul de Teresina. Em meio a muita pobreza numa área que nasceu da invasão de um terreno, os anos se passaram e o futuro psicólogo, atualmente, já mora no bairro Lourival Parente, também na zona Sul. Mesmo com a ascensão por estar em um imóvel bem melhor, viver na localidade ainda é estar à margem do poder público.

Entender sobre o racismo sofrido só foi possível ao longo de anos. Já num espaço de privilégio, como é o exemplo da universidade, José confessa que antes não tinha posicionamento crítico acerca das ações de PMs e que nunca passou por uma situação constrangedora quando mais novo porque andava com o fardamento do Instituto Federal do Piauí (Ifpi), local também considerado por ele como elitista e branco. O tempo passou, ele saiu daquela instituição de ensino e perdeu o passaporte de negro socialmente eurocêntrico, de forma que uma abordagem policial o fez abrir os olhos à realidade de uma população discriminada pela cor.

Um chinelo pode te incriminar

“Eu não estava passando por um momento muito fácil da minha vida. Eu saí de casa completamente desleixado, desarrumado, de chinelo, de calça. Eu lembro que eu estava com uma bolsa enorme nas costas. Neste dia, no meu bairro, havia uma operação da PM de combate às drogas. Eu estava em uma parada de ônibus, localizada em um bar, com pessoas simples. Quando eu fui pegar o ônibus, vieram dois policiais, um de cada lado. E aquilo, para mim, foi muito constrangedor e me senti como se eu fosse um bandido”, relembrou José.

A descrição da vestimenta do entrevistado faz com que se pense ainda mais no racismo incutido na abordagem que sofreu. Por ser negro, “andar desleixado” e usar chinelo de dedo é tão criminoso quanto ser flagrado em um roubo, assassinato ou afins. No Brasil, infelizmente, ter a pele escura te força a ser duplamente branco para ser “aceito”, a fim de evitar ser barrado numa porta giratória de banco, não ser perseguido entre as prateleiras de um supermercado nem ouvir gritos histéricos na rua de um racista no carro do ano contra o teu cabelo black power.

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Muitos negam, mas o racismo existe (Foto: Reprodução/Brito Junior)

“Eu falei para eles [PMs] que estava indo à universidade e que não teria como parar agora. Mas insistiram e me pararam, quando juntou muitas pessoas na rua e muitas surpresas com aquela abordagem. Algumas podem ter pensado que eu não sou envolvido com isso [tráfico], mas outras talvez pensaram o contrário: ‘Nossa, o José está envolvido?’. Todo mundo na expectativa de saber, realmente, o que iria acontecer. Eu lembro que fiquei parado, com muita raiva, e eles tomaram a minha bolsa”, continuou José sobre o episódio.

O menino com a roupa da escola

Felizmente, as histórias de Marcos e José não tiveram o mesmo fim de outros tantos brasileiros vítimas fatais do despreparo das forças de segurança pública, Brasil afora. Mais recentemente, na cidade do Rio de Janeiro, um estudante morador do Complexo de Favelas da Maré morreu em uma operação policial sob a intervenção federal, desde fevereiro deste ano. Adolescente, de 14 anos, antes de morrer, Marcus Vinícius da Silva questionou à mãe: “Ele não viu que estava com roupa de escola?”.

Este episódio traz várias reflexões, inclusive com reverberações no Piauí, estado considerado como o sétimo do país onde há menos mortes causadas por policiais civis e/ou militares. Embora não esteja na outra ponta da tabela, expor dados de homicídios nunca é uma tarefa para se comemorar. No mesmo levantamento, é mostrado aumento dos índices locais, ao longo de três anos.

Em 2015, foram 18 homicídios provocados por policiais, equivalentes a 0,6 mortes por 100 mil habitantes. Em 2016, o número subiu para 27, ou seja, 0,8 pessoas assassinadas para cada 100 mil habitantes. No último ano, já em 2017, o cenário já mostra 30 vítimas fatais, o que corresponde a 0,9 mortos por 100 mil habitantes. Intitulada de “Monitor da Violência”, a pesquisa do portal de notícias G1 é uma parceria com o Fórum Nacional de Segurança Pública e com a Universidade de São Paulo (USP), divulgada em maio de 2018.

Juventude negra exterminada

O Luneta não se furtou de consultar um especialista. Marcelo Mascarenha, presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Piauí (OAB-PI), coloca-se como um grande crítico ao modelo atual de formação da Polícia Militar, não só em nível local, mas também nacional. Mesmo assim, o advogado pondera que há muitos policiais valorosos, enquanto outros desonram a farda da corporação, sugerindo a exclusão dessas pessoas dos quadros da instituição.

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Advogado Marcelo Mascarenha critica a seletividade das forças de Segurança (Foto: Édrian Santos/Portal Luneta)

“Nós vivenciamos o extermínio da juventude negra na periferia do Brasil. A violência acaba vitimando, principalmente, o jovem negro. Vitima dos dois lados, sendo a violência que parte da criminalidade e a violência que parte da polícia. As vítimas, preferencialmente, são jovens, entre 16 e 29 anos, moradoras da periferia. Esse é um dado muito sério, pois demonstra certa seletividade da atuação do aparelho estatal. Se for conferir, a maior parte da população encarcerada é de jovens, negros, pobres e da periferia”, analisou Mascarenha.

O outro lado também foi ouvido pela reportagem, na pessoa do coronel Lindomar Castilho, recém-nomeado comandante da Polícia Militar do Piauí. Os argumentos deste, que ocupa o mais alto cargo da corporação piauiense, giram em torno do investimento em didáticas que envolvam os Direitos Humanos na formação dos policiais.

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Coronel Lindomar Castilho ressalta investimentos em Direitos Humanos aos PMs (Foto: Édrian Santos/Portal Luneta)

“A formação é um negócio muito completo, inclusive sobre os Direitos Humanos e noções de Direito para o policial militar. São, no mínimo, 600 horas lá na formação do policial. Este curso que vou pegar agora são mil horas/aula. São seis meses de formação, manhã e tarde”, explicou o coronel. Tal posicionamento é em favor de uma instituição mais preparada para lidar com as diversas situações do cotidiano de um PM, em resposta às histórias de Marcos e José.

Racismo além das opressões policiais

Muitos negam, mas o racismo existe. Quem o sofre, não está com vitimismo. Só quem lida diariamente com exclusões em todos os segmentos da sociedade sabe a dor que passa e as oportunidades perdidas por conta de uma diversidade racial brasileira que não é diversa, mas sim eurocêntrica e seletiva.

Para além das opressões policiais, uma parceria do Luneta com alunos do sétimo período do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí (UFPI), matriculados na disciplina Estética e Crítica da Mídia, traz um material audiovisual a respeito da solidão da mulher negra. A orientação do trabalho foi da professora Maria Clara Estrela. Assista ao minidocumentário “Antes de ser negona, era a neguinha”.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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