Olhares sobre a gordofobia e a pressão estética

Repórter: Ananda Oliveira

Historicamente, a relação com o corpo foi fortemente determinada por fatores sociais. O que era considerado como padrão corpóreo em uma determinada época já não era em outra. O feio, o belo, o que era aceito e o que era (e é) alvo de chacota foi mudando ao longo da história.

No passado, o sobrepeso já foi símbolo de riqueza e saúde. Com a disseminação do padrão estético imposto pela indústria da moda, um novo tipo de corpo ganhou papel de destaque e passou a ser objeto de desejo de homens e mulheres, que buscam tanto pertencer aquele padrão como busca pares que caibam naquela exata medida.

Nesse contexto, a obesidade, ainda que tratada como uma questão de saúde, ultrapassa os limites do fator biológico. A forma como a sociedade trata a pessoa obesa, com uma preocupação voltada ao “saudável” pode mascarar um preconceito enraizado há várias décadas e repassado geração após geração. Isso só trava o debate e dificulta o processo de olhar além dessa análise superficial.

Vivências

Para entender essa realidade, só ouvindo quem tem esse lugar de fala, ou seja, quem vivencia essas questões e tem propriedade sobre o assunto. Conversei com a Mariana Carvalho, estudante de Ciência Política. Ela conta como é o dia a dia, a forma como as outras pessoas a veem e como faz uma avaliação sobre tudo isso. Quando alguém trata a condição física dela como apenas um caso de saúde, a personagem relata que há muito mais por trás.

“É um jeito de dizer para a pessoa: ‘emagrece’, sem mandar a pessoa emagrecer. Usar o argumento da saúde é só uma forma bonitinha de dizer ‘emagrece’. Dá o tom de convencer a pessoa pelo viés não estético. Tipo, eu quero que você emagreça por questões estéticas, porque isso é muito mais importante, mas eu te falo que é por questão da saúde só para você não ficar com muita raiva. Só que, enquanto eu falo isso, estou me entupindo de sódio, estou bebendo refrigerante, eu estou fazendo mil coisas que, falando sobre a questão da saúde, seria extremamente nocivo”, enfatiza a estudante.

Para Mariana, essa atitude mascara a gordofobia. Este é um conceito recente que caracteriza um conjunto de atitudes que oprimem as pessoas obesas, desde a falta de acessibilidade ao preconceito diário dos quais elas são vítimas.

Mariana conta ainda que essa pressão afeta também o seu namorado. Segundo ela, muitas pessoas não entendem como ele mantém um relacionamento. Para muitos, a relação é desproporcional. Essas questões todas fazem Mariana militar na causa. Ela já fez um ensaio nu para o evento cultural Salve Rainha e teve que lidar com muitas críticas.

Gordofobia X Pressão Estética

O podcast Mamilos conversou sobre a questão, que é complexa e polêmica. Com dados e um debate franco, eles trouxeram para discussão diferentes lados dessa questão. Confira a seguir a discussão do publicitário e youtuber Bernardo Boechat, da empresária criadora da feira Pop Plus Flávia Durante, da criadora do canal AlexandrismosAlexandra Gurgel e da criadora da grife plus size Lilavi Virgínia Cruz, com participação da mestre em nutrição Marcela Kotait.

https://soundcloud.com/mamilospod/135-gordofobia

A realidade da pessoa gorda: os dados

Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2016, uma em cada cinco pessoas no país está acima do peso. Entre 2006 e 2016, o índice de brasileiros obesos passou de 11,8% para 18,9%. É uma população que cresce e se depara diariamente com os efeitos do preconceito em coisas simples, da vida prática até questões mais complexas.

Nesse universo, por exemplo, não é fácil conseguir um emprego. Segundo uma pesquisa da Catho, 6% dos empregadores, assumidamente, não contratam pessoas obesas. Um estudo publicado no Jornal de Psicologia Aplicada Americana, em 2010, caminha nessa direção e mostra que uma mulher “muito pesada” pode ganhar até 19 mil dólares anuais a menos que uma “normal”.

Viver na cidade

Teresina é acessível? Quando você lê esta pergunta, o que pensa? Um palpite sobre tal resposta seria o cadeirante, invisibilizado e sem muitos acessos na paisagem urbana. Isso é bem verdade. Mas você já parou para pensar no cotidiano de uma pessoa gorda? Bancos de ônibus, catracas, poltronas em uma sala de espera, as roupas nas lojas de departamento, portas giratórias dos bancos… A lista parece infinita.

Mariana conta que tudo é mais difícil e que não existe um sistema que garanta acessibilidade para as pessoas obesas. Para a estudante, há falta de conhecimento da própria população sobre o assunto e também falta de interesse em buscar mais a respeito da gordofobia.

A estudante lembra uma lei municipal, desconhecida por muitos, que trata a pessoa obesa como um ocupante preferencial dos assentos no ônibus. A Lei nº 3.946/2009, em seu art. 48, parágrafo 4º, afirma que “os veículos terão assentos destinados ao uso preferencial por pessoas portadoras de deficiências, gestantes, obesos mórbidos e idosos, devidamente identificados, nas partes traseiras e dianteiras, nos termos da legislação específica”. Ainda assim, ela reclama, essas pessoas são olhadas de maneira torta e não têm seus direitos respeitados.

O ponto de vista médico

Ianne Fernandes é nutricionista, especialista em Nutrição Clínica e Funcional e mestranda em Ciências da Saúde. Ela também conversou com o Luneta e trouxe algumas questões para o debate. Para ela, questões sociais, fisiológicas, hormonais, econômicas e psicológicas das pessoas influenciam a escolha das melhores estratégias nutricionais, de forma que cada caso é um caso. Pela mesma, também é ressaltado que obesidade é questão de saúde pública.

“Estudos recentes consideram essa doença como o terceiro problema de saúde pública, que demanda gastos da economia brasileira em cerca de R$ 110 bilhões. É um problema multifatorial. É uma consequência de maus hábitos alimentares, fatores genéticos, psicológicos, fatores ambientais, como estilo de vida sedentário, falta de sono e problemas na convivência familiar. Esses fatores podem atuar isolados ou em conjunto, dependendo do indivíduo”, assinala.

Conversei com a nutricionista para entender também sobre a questão de saúde, do ponto de vista nutricional. Mariana falou de uma realidade onde pessoas magras podem se alimentar mal e não ser saudáveis, enquanto pessoas gordas podem se alimentar adequadamente, ter um estilo de vida mais ativo e ainda assim sofrer com o preconceito. A preocupação com a saúde, na opinião dela, não seria genuína. Ianne tem outra percepção da questão.

Obesidade não é saudável

“Uma pessoa gorda não é considerada, de forma geral, saudável. Primeiro pela questão do excesso de peso, tanto em relação à altura, como em relação à idade, como a composição corporal como um todo”, defende. Além disso, segundo Ianne, os exames bioquímicos (como a glicose e o colesterol) podem atestar taxas normais, enquanto exames mais específicos podem diagnosticar o potencial para a instalação de problemas de saúde decorrentes da obesidade.

A nutricionista afirma que é importante ter uma “rede” de atendimento multiprofissional, com nutricionista, psicólogo, médico, entre outros profissionais. “Todo obeso é inflamado e, por isso, tem a predisposição de desenvolver várias doenças futuramente que só vão aparecer os resultados e as consequências quando as doenças estiverem instaladas”, explica.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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