O “novo” velho jeito de pegar ônibus em Teresina

Repórteres: Robert Araújo e William Sousa

Aproximadamente 300 mil teresinenses vão para o trabalho, para escola e até seus compromissos diariamente utilizando ônibus. Para atender a essa demanda, cerca de 440 veículos trafegam na cidade. O município contava com um sistema de linhas chamado radial, que saem dos bairros para o centro. Mas o sucateamento dos veículos, pontos de ônibus desconfortáveis, superlotação, demora de linhas, entre outros problemas, fazem o sistema de transporte virar um caos. A solução, segundo os gestores de Teresina, vem de fora do estado com outros exemplos que servem de modelo.

01 INTHEGRA AINDA É DESAFIO PARA PREFEITURA
Inthegra ainda é desafio para prefeitura (Foto: Robert Rodrigo/Luneta)

Uma hora da tarde de uma sexta-feira. Faz 35º em Teresina. Nada mal se comparado ao período do B-R-O BRÓ. Estamos na praça do Fripisa, região central da cidade. O nosso destino? O terminal de ônibus do Parque Piauí. São poucos os metros para conseguirmos embarcarmos em uma linha que nos leve ao destino final, já que a praça que estamos só recebe ônibus das zonas Leste e Norte. Atravessamos uma movimentada Rua Coelho Rodrigues e chegamos ao que devia ser um ponto de ônibus.

Pelo menos 30 pessoas tentavam se proteger do sol e, de pé, aguardavam desconfortavelmente seu transporte público. O que nos abriga desse sol escaldante é somente uma árvore de dentro da Biblioteca Cromwell de Carvalho, que seus galhos se estendem até a rua. A parada de ônibus que existe ali é velha e não oferece nenhum conforto aos passageiros.

Os novos modelos de paradas de ônibus prometidas pela gestão municipal ainda não foram implantadas em sua totalidade em Teresina. Em alguns pontos da cidade, o que abriga os passageiros do sol, às vezes, é um poste, uma árvore, sem nenhuma estrutura de proteção do sol e da chuva. E nem esse novo modelo de parada de ônibus agradou aos teresinenses, que criticam que elas não protegem dos raios solares e nem de precipitações climáticas.

Nosso percurso

02 MAPA MOSTRA COMO UTILIZAR O SISTEMA
Mapa mostra como utilizar o sistema(Foto: Robert Rdrigo/Luneta)

Em sete minutos conseguimos embarcar no ônibus que faz a linha T831, Terminal do Parque Piauí-Miguel Rosa. Ônibus novo, equipado com ar condicionado e com poucos passageiros. Dentro do ônibus a temperatura é agradável.

A viagem segue confortável. Ao adentrar na avenida Miguel Rosa, uma das principais vias da zona sul, o ônibus segue pela faixa exclusiva, que foram implantadas para diminuir o tempo de percurso do ônibus e otimizar a espera dos passageiros.

Esta mesma estratégia está sendo adotada em outras avenidas de Teresina, como a Duque de Caxias, Presidente Kennedy, João XXIII e Gil Martins. Nelas, também devem ser construídas as estações de transbordo.

A cada estação, o ônibus para obrigatoriamente para embarque e desembarque de passageiros. Da praça do Fripisa até a estação de transbordo, próximo ao cruzamento da Miguel Rosa com a avenida Nações Unidas, foram 11 minutos. Decidimos descer numa dessas novas paradas construídas no canteiro central da Miguel Rosa, as chamadas estações de ônibus.

04 ESTAÇÃO DE TRANSBORDO NA AVENIDA MIGUEL ROSA
Estação de transbordo na avenida Miguel Rosa(Foto: Robert Rodrigo/Luneta)

A estação é nova e está em boas condições de uso. As portas só abrem após a aproximação do ônibus. Porém, encontramos a estudante Letícia Martins que reclama da falta de segurança. “Já houve um arrastão. Levaram tudo. Seria bom se tivesse policiamento”.

Na mesma estação, encontramos o enfermeiro Francisco Raulino. Para ele, o novo sistema em outras capitais é mais avançado. “O sistema funciona, não como em outras capitais. Mas, com o tempo o piauiense se acostuma”, comenta.

E de fato é preciso se acostumar com as mudanças. Durante o período que estávamos na estação não foi difícil ver pessoas atravessando fora da faixa de pedestres, fazendo a travessia mesmo com a sinalização informando que ainda não era o momento e até mesmo pessoas caminhando no corredor exclusivo.

05 PEDESTRES DEVEM USAR BOTOEIRAS PARA ATRAVESSAR AVENIDA
Pedestres devem usar botoeiras para atravessar avenida(Foto: Robert Rodrigo/Luneta)

Seguimos adiante. Faltam 15 minutos para as duas horas da tarde quando chega o ônibus T731, Terminal Bela vista-Miguel Rosa. dessa vez, o ônibus estava bem mais cheio que o anterior. Mesmo assim, o ar condicionado estava funcionando bem.

A viagem fluiu normalmente da estação de transbordo, na Miguel Rosa, até o terminal do Bela Vista. Foram exatos 15 minutos. Mas, se existe rapidez do centro até o terminal, há lentidão e demora das linhas alimentadoras. “Demora 50 minutos o ônibus para o Eduardo Costa e sempre é muito cheio”, relata a cuidadora de idosos Rita Barros.

No terminal do Bela Vista também encontramos a empregada doméstica Gerusa Pereira. A reclamação dela é que a integração não funciona entre bairros da mesma zona. Ela vai a pé do terminal do Bela Vista até o trabalho no Planalto Bela Vista. “Eu moro no bairro Vamos ver o sol. De lá venho para o terminal do Bela Vista e do terminal vou a pé para o trabalho, para não pagar duas passagens. Senão eu gastaria R$14,40 por dia. Para mim não adiantou”, relata.

A nossa viagem continua. Do terminal do Bela Vista decidimos pegar a linha interterminal até o Parque Piauí. O ônibus não possui ar-condicionado, seus assentos são desconfortáveis e o barulho é insuportável. E como isso faz uma diferença danada no horário de 2:40 da tarde, quando embarcamos.

Seguimos de volta para o centro de Teresina, onde dali iríamos para a Universidade Federal do Piauí – UFPI. Depois de alguns transtornos teríamos que estar com certa pontualidade na instituição. Para termos a previsão, consultamos dois aplicativos de ônibus que estão disponíveis para agendamentos de embarques: o Moovit e o StarBus. Ambos, não são muito precisos e não indicam 100% da frota em circulação. Seu tempo estimado também não são certos, chegando a atrasar pelo menos 15 minutos.

Sistema precisa de ajustes até para os empresários

Nossa busca por informações sobre o Inthegra prossegue. Desta vez, fomos atrás das respostas diante das reclamações dos passageiros. O nosso itinerário nos leva a superintendência municipal de trânsito de transportes-Strans.

Quem nos recebe é o diretor de transportes do órgão, Francisco Nogueira, que avalia de maneira positiva a implantação do sistema na zona sul da capital. No entanto, reconhece que alterações devem ser feitas para melhorar a fluidez do sistema. Os terminais serão fechados, a exemplo de outras capitais.

“As pessoas estavam reclamando que estava demorando para embarcar no troncal. Ou seja, ele descia do alimentador e tinha uma fila para entrar no ônibus. Isso causava tumulto. Houve um estudo para mudar e telas já foram adquiridas para ser colocadas ao redor dos terminais”, garante o diretor.

08 INTHEGRA NÃO RESOLVEU PROBLEMAS DE CONFORTO E SUPERLOTAÇÃOInthegra não resolveu problemas de conforto e superlotação(Foto: Robert Rodrigo/Luneta)

Após a licitação do transporte coletivo de Teresina duas das treze empresas decretaram falência. Sinais de que o sistema antigo já não estava dando certo nem mesmo para os empresários. A assessora técnica do sindicato das empresas de transporte urbano de Teresina, Miriam Aguiar, revela que ainda não é possível fazer uma avaliação do ponto de vista financeiro.

“Através dos terminais físicos, você consegue dar essa mobilidade numa velocidade que a operação em corredores propicia. Então a lógica desse sistema todo é garantir para o usuário uma mobilidade, e garantir a racionalidade da operação, com uma oferta maior de serviço. Como consequência disso uma racionalidade também no custo de operação”, finaliza Miriam.

Curitiba / Teresina

Curitiba, 1974. O arquiteto e então prefeito da capital do Paraná, Jaime Lerner, cria o Bus Rapid Transport, conhecido simplesmente como BRT. O novo sistema de transporte, que contaria com corredores e faixas exclusivas para ônibus, iria melhorar o deslocamento dos curitibanos.

Ao longo dos anos a cidade foi crescendo, novos corredores foram construídos e ônibus articulados foram colocados em circulação. Dando prioridade ao transporte coletivo, Curitiba é vista, no mundo inteiro, como a cidade que conseguiu resolver o problema de mobilidade urbana.

No Brasil, a visibilidade do BRT veio com a escolha do país para sediar a copa do Mundo. Desde então, os governos investiram neste modelo como saída para a crise de mobilidade urbana nas cidades de médio e grande porte.

Em meados de 2010, a prefeitura de Teresina implanta a integração temporal através de bilhetagem eletrônica, permitindo ao passageiro pegar dois ônibus pagando apenas uma passagem. Para garantir investimentos do governo federal, em mobilidade urbana, é realizada em 2014 a licitação do transporte coletivo da capital.

As empresas se organizaram em consórcios e disputaram as zonas da cidade, que foram divididas em lotes. Apenas uma empresa de outro estado participou do certame. Mas, somente as empresas que já operavam Teresina foram as vencedoras da licitação.

Em 2015, foram iniciadas as obras para construir os oito terminais de integração, dois em cada zona da cidade. No ano seguinte, obras também se iniciavam no canteiro central de algumas avenidas para a construção das estações de transbordo, que fazem parte da implantação dos corredores exclusivos para ônibus.

Teresina, 2018. Mais de quatro décadas após o BRT de Curitiba, a prefeitura, enfim, lança o BRT de Teresina. Batizado de INTHEGRA, o “novo” sistema de transporte tronco-alimentador busca resolver de vez os problemas do sistema antigo.

Inaugurado em março de 2018 na zona sul da cidade, a promessa era de que o teresinense poderia usar o sistema pegando até três ônibus e pagando uma única passagem. Na prática, quem sai de bairros mais distantes e precisa ir ao centro da capital, agora, pega dois ônibus. Um alimentador (bairro para o terminal) e depois um troncal (terminal para o centro). Chegando no centro, por exemplo, o usuário consegue fazer integração com linhas de outras zonas.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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