Jornalismo Esportivo no Piauí: faltam mulheres, sobram clichês e preconceitos

Repórter: Juliana Andrade

Gostosa, sai do campo e vem trabalhar aqui em casa”

Pode até parecer que a frase acima foi dita em meados do século passado, mas não. Foi proferida por um torcedor na final do Campeonato Piauiense de 2018. Era década de 1970 quando a primeira mulher jornalista realizou um trabalho enquanto repórter dentro dos campos de futebol.

“O que você está fazendo aí no campo? Só foi paquerar?”,  gritava a torcida para as jornalistas. Hoje, 40 anos depois, como se percebe, o cenário não mudou muito e as poucas mulheres no jornalismo esportivo trazem como consequência os diversos assédios sofridos dentro desse ramo profissional.

Fotos Juliana jornalismo esportivo
Cobertura esportiva no Piauí precisa sim de mais mulheres (Foto: Reprodução/Imprensa)

No Brasil

As mulheres já conquistaram espaços nunca antes imaginados: da presidência da República ao comando do Supremo Tribunal Federal (STF), principal corte da Justiça brasileira. Por outro lado, quando se trata de mulher comentando sobre esportes, a representatividade é esquecida na “terra do futebol”, país que ainda tem muito a aprender e a desconstruir.

Na TV fechada, apenas 13% dos profissionais que aparecerem na frente das telas são mulheres, sendo quase todas elas como repórteres. A inserção feminina na narração ainda chega ao público em caráter experimental, sem nenhuma mulher, de fato, no cargo. Já entre comentaristas contratadas, o mercado brasileiro só conta com três profissionais do gênero.

No Piauí

Não sendo diferente do restante do Brasil, no Piauí, o número de jornalistas esportivas também é reduzido. Atualmente, apenas duas mulheres trabalham como comentaristas de esporte em todo o estado. A jornalista Pâmela Maranhão é uma dessas profissionais. Formada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), ela é colunista de um portal local e locutora do programa Universitária Esportiva, da rádio FM Universitária.

Ela explica que, desde o início do curso, já se interessava por jornalismo esportivo, pois costumava assistir a muitos jogos de futebol com o avô. Ao entrar na graduação, o interesse pela área só cresceu e, mesmo com toda a dificuldade de reconhecimento e respeito dentro dos campos ou quadras, ela resolveu não desistir.

“Nunca foi fácil trabalhar com esporte no Piauí. Por ser um campo ainda muito machista, por diversas vezes, tive que ser grosseira para me tratarem com o devido respeito, me impondo e mostrando que sou uma profissional como qualquer outro que esteja ali. Já passei por situações constrangedoras com jogadores e com torcedores, mas isso me dá cada vez mais força para não desistir de fazer o que gosto”, relata ao Luneta.

Questionada sobre algumas situações machistas que ela já passou na profissão, Pâmela conta que, diariamente, escuta comentários discriminatórios. Ao mesmo tempo, ela não poupa elogios aos colegas de profissão que, por muitas vezes, já a ajudaram a fugir de algumas situações machistas.

“Muitas pessoas são machistas e nem percebem. Muitas vezes, já ouvi gente dizendo que eu nem deveria reclamar sobre isso, porque dizem que os técnicos e jogadores adoram dar entrevistas para mulheres. Só que eu não quero conseguir uma entrevista por esse motivo e sim porque sou competente e gosto de trabalhar com o que faço”, enfatiza.

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Pâmella Maranhão se engaja com a luta das mulheres dentro do jornalismo esportivo em suas redes sociais (Foto: Reprodução/Instagram)

#DeixaElaTrabalhar

A luta pela igualdade de gênero e a denúncia de assédios ganha mais força no cenário nacional e internacional. No Oscar, por exemplo, atrizes se reuniram em um discurso de apoio ao Time’s Up, campanha que motivou protestos em diversas premiações. No Brasil, o movimento “Deixa Ela Trabalhar” ganhou as redes sociais, ao denunciar episódios de assédio contra jornalistas esportivas. Um dos casos que desencadeou essa campanha nas redes sociais foi o ocorrido com a repórter Bruna Dealtry. Enquanto estava em uma transmissão ao vivo, um torcedor a beijou na boca, no Estádio de São Januário.

Logo após o episódio, cerca de 50 jornalistas mulheres se uniram em uma campanha nas redes sociais, intitulada “Deixa ela trabalhar”. Por meio de um vídeo lançado na Internet, as jornalistas relembraram agressões que sofreram durante coberturas esportivas e fizeram um apelo para que possam trabalhar sem passarem por agressões diárias.

Para a surpresa de alguns, no mesmo dia em que a campanha foi lançada e tomou visibilidade também no Piauí, mais uma repórter foi vítima do machismo que continua assolando os estádios Brasil afora.

‘Eu deixo tu trabalhar lá em casa’

“No dia do lançamento da campanha, a Federação Piauiense de Futebol [FFP] nos presenteou com algumas camisas que estavam escritas com a tag #DeixaElaTrabalhar. No mesmo dia, era a final do Campeonato Piauiense de Futebol e eu e uma colega resolvemos ir com a camisa. Assim que entramos no estádio, as piadas começaram. Um torcedor gritou bem alto ‘Eu deixo tu trabalhar lá em casa’. Outros chamavam a gente de gostosas, também mandando nós duas sairmos do gramado e ir trabalhar na casa dele, foi revoltante”, desabafa Pâmela ao Luneta.

Para Pâmela Maranhão, expor e denunciar episódios como os citados por ela e compartilhar experiências para que as mulheres tenham mais forças para enfrentar obstáculos, é de fundamental importância para o crescimento da mulher no mercado, não só jornalístico esportivo, mas em todos os âmbitos. “O futuro de uma jornalista esportiva é promissor, mas o caminho para ganhar credibilidade ainda é muito longo”, conclui.

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Regiani Ritter diz ter sido a primeira mulher jornalista a entrevistar jogadores de futebol no vestiário, como Veloso e Antônio Carlos. (Foto: Reprodução/Observatório da imprensa)

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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