De mãos atadas: as dificuldades de quem vive do artesanato em Teresina

Repórteres: João Marcelo Ferry e Vinícius Deolindo

O artesanato fala muito a respeito de um povo, a diversidade de formas e cores feitas a partir de matérias-primas do seu ambiente de origem. Seu comércio é importante para se conhecer e transmitir diferentes culturas, mas também serve como fonte de renda para parte da população local, tanto para os vendedores quanto para os próprios produtores das artes.

Teresina possui um artesanato bem diverso, fruto do trabalho dos profissionais e da variedade de materiais dos quais são feitos, dentre eles: opala, argila, couro, além de produtos comestíveis como licores e doces. Porém, sua riqueza artística não é suficiente para suprir as necessidades de quem vive dele, isso por se tratar de um comércio instável e diretamente ligado ao turismo local.

O problema é que a situação desse turismo não está nada boa para vendedores e artesãos que tem o artesanato como fonte de renda para o seu sustento. Ao perguntá-los “Como estão as vendas de artesanato atualmente?” as respostas foram todas no mesmo sentido. Coisas do tipo: “Estão fracas” ou “Já foram melhores”.

Indo a Central de Artesanato Mestre Dezinho, localizada no centro da cidade na Praça Pedro II, e conversando com os vendedores que atuam com os mais variados tipos de artigos provenientes do artesanato, vemos um cenário parado, com lojas vazias e as poucas visitas que entram ou compram pouco ou passam apenas dando uma olhada.

São vasos, bebidas, doces, jóias, decorações, tecidos, bonecos, bonés, bijuterias, quadros, entre outros objetos que são apreciados diariamente por alguns visitantes, mas dificilmente estão sendo adquiridos pelos mesmos.

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Insira uma Doces e bebidas são bastante comercializados em lojas de artesanato teresinense (foto: Vinicius Deolindo/Luneta)

Dona Ivanilde Gomes começou a trabalhar com artesanato aos 13 anos de idade, por isso já possui certa experiência neste mercado. Hoje trabalhando com itens variados como doces e peças de decoração, ela fala do perfil de seus clientes. “A gente vende só pra turista. Pessoal daqui eles não andam muito na central. E, às vezes, quando andam é trazendo turista e nessa época do ano não tem. A época que dar turista aqui é no mês de julho e final de ano, dezembro, janeiro e fevereiro. Agora, não. O comércio está parado.”

As vendas, segundo ela, dependem dessa presença dos turistas, atingindo até R$ 4.000,00 de lucro por semana. No entanto, em momentos de baixa estação para turistas, ela comenta que a situação não é tão boa assim, e se as vendas atingirem o patamar de mil reais em uma semana já podem ser consideradas boas.

Além disso, outro fator está prejudicando as vendas no local, uma reforma iniciada em 2016 e que ainda hoje está inacabada. A promessa era de aprimorar as estruturas, construir um restaurante de comidas típicas e uma escola de artesanato dentre outras melhorias, mas, hoje, tudo que a obra tem proporcionado para os lojistas da central é dor de cabeça.

Um dos artesãos da Central de Artesanato que está sendo afetado pelas obras é  Carlos Oliveira. Carlos teve a fachada de sua loja completamente coberta pela área onde as obras foram paralisadas. Ele fala que é preciso que ele fique chamando os visitantes para que eles venham até a loja, já que ele não podem ver por eles mesmos o espaço.

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O artesão Carlos Oliveira com parte dos materiais que vende em sua loja (Foto:Vinicius Deolindo/Luneta)

“Nossas lojas são diferenciadas e mesmo assim não tiveram nenhum respeito com nosso trabalho. Por causa dessas barreiras para a visão dos visitantes o movimento caiu. Hoje, se comparando com antes das obras, posso dizer que 60% do meu movimento caiu, e os 40 % que se mantiveram foram das pessoas que já conhecem e confiam no meu trabalho”, fala Carlos Oliveira.

Muitos dos produtos vendidos na Central de Artesanato vêm do Poty Velho, onde existe outro complexo de artesanato. Lá são vendidos produtos feitos de argila que são produzidos lá mesmo. O barro que é coletado próximo ao local e trabalhado por artesãos habilidosos e experientes, que passam o dia moldando e preparando as peças. Após moldadas, elas são postas para secar em um processo que leva cerca de alguns dias.

Em seguida, chega a hora de levar as peças secas para o forno, onde serão quase finalizadas. Após um ou dois dias no forno as peças são retiradas e o processo de finalização se inicia. O problema é que todo esse processo vem tendo sua qualidade ameaçada segundo os artesãos do local.

Modernidade e tecnologia prejudicam

A principal matéria-prima usada é retirada no próprio Poty Velho, mas o projeto Lagoas do Norte ameaça a sua extração no local. A proposta da prefeitura para esses trabalhadores é que agora o barro seja extraído da região da Santa Maria da Codipe. João Marcos é artesão do polo cerâmico do Poty Velho. Ele fala que a mudança não trará benefícios para a produção.

“A qualidade do barro dessa nova área é muito inferior, os produtos não terão o mesmo acabamento que estão tendo agora. Outro problema é o aumento dos nossos custos. Se deslocar daqui do Poty Velho para esse outro local não é muito vantajoso e traria custos de transporte e carregamento para nós”, comenta.

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Vasos de argila feitos e comercializados no Poty Velho, Zona norte de Teresina (Foto:Vinicius Deolindo/Luneta)

Ele ainda acrescenta que as vendas atuais estão fracas e novos custos apenas iriam piorar a realidade das famílias que dependem da atividade. “Atualmente as vendas estão dando mal para pagar as contas. Se aumentarem os custos para conseguirmos produzir, estaríamos quase que pagando para trabalhar e isso tornaria a atividade nada sustentável”, diz o artesão.

As profissões ligadas ao artesanato em Teresina estão agora em um período delicado, os próprios comerciantes que trabalham nesta área reconhecem que independente de haver ou não turistas para comprar ou mesmo conhecer suas artes, existem outros fatores que estão interferindo nas suas vendas.

A própria questão financeira que afeta todo o país, além das preferências de muitas pessoas por adquirir itens mais inovadores e tecnológicos diminuem o espaço dessa tradição no interesse do público. Afinal como alguns dos próprios artesãos colocam, “as pessoas precisam comprar o básico para elas, e com a crise financeira, dificilmente elas abriram espaço para itens que não são tão essenciais”.

A confecção de artesanatos não é suficiente se não houver a valorização da cultura local e se não houver um maior apoio do poder público. Reconhecer as habilidades do seu povo e garantir que essa cultura tenha espaço dentro da sociedade é enaltecer o que nosso estado tem de melhor.

E caso você se pergunte por que não abandonar uma profissão que enfrenta tantas dificuldades, a resposta é simples, ela já está na essência de quem a pratica e abandoná-la seria quase que como abandonar a si mesmo. Eis então a justificativa de se manter nesse caminho, que apesar de ardiloso, representa o cerne de cada um dos artesãos.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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