Da glória à decadência: conheça histórias de quem vive o teatro piauiense

Repórteres: Mateus Fernandes e André Castro

O teatro teresinense traz espetáculos desde 1860, com o surgimento da primeira casa da cidade, hoje conhecida como Palácio da Cultura. Logo depois, um grupo de senhoras, junto com a primeira-dama do Estado, teve a ideia de erguer uma nova casa de espetáculos, localizada na Praça Pedro II. Foi aí que, em 1889, começa a ser construído o Theatro 4 de Setembro.

Com o passar dos anos, muitos personagens pisaram nos palcos dos teatros teresinenses. O Luneta conversou com um dos atores mais antigos em atividade na cidade, Airton Martins, que também é presidente do grupo Harém de Teatro, existente desde 1985. A vida de artista começou aos 13 anos, na cidade de Floriano, sul do Piauí. Aos 16, muda-se para Teresina e, pela primeira vez, participa de uma peça profissional.

A conversa aconteceu em um salão, onde os atores costumavam ficar durante os intervalos dos espetáculos. Hoje, o local virou uma sala de aula com mesas e quadros, apesar de ainda manter o estilo arquitetônico português de quando foi edificado. O espaço tem uma vista privilegiada da Praça Pedro II e o som dos carros e conversas ao longe transmitem certa tranquilidade, contrapondo a tarde quente da capital piauiense.

Airton tem 63 anos e conserva os detalhes na memória. Com essas lembranças, vêm as datas e os nomes que fizeram parte da história cênica de Teresina. Ele conta que o grupo Harém de Teatro surgiu de uma necessidade durante a encenação da peça “Dois amores de Lampião”, em 1985.

“Esse espetáculo foi assinado pelo diretor, mas por trás não tinha um grupo organizado. Eram pessoas que a gente convidou na época e, para a gente poder participar de outros festivais, foi criado o Grupo Harém de Teatro. E o grupo levou esse nome porque, naquela encenação, o Lampião tinha um harém”, relata ao Luneta.

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Airton Martins diz que as dificuldades financeiras do teatro acontecem em quase todo o Brasil, já que a maior parte do dinheiro é destinada à região Sudeste. (Fotos: André Castro/Luneta)

Anos dourados se foram

Quando perguntando sobre as dificuldades de incentivo público no teatro, Airton fala que sempre foi pouco. De acordo com ele, sempre existiram muitas dificuldades em viajar para fora do Estado e promover festivais em Teresina. “No caso do grupo Harém, para viajar, a gente mesmo bancava as viagens. A gente passava um ano pagando conta e, geralmente, o dinheiro da bilheteria ia para pagar as passagens”, afirma.

Mesmo com as dificuldades, houve uma época em que a cultura era mais incentivada pelos órgãos públicos, como nos primeiros anos da década de 70. “Foi uma época muito rica para a cultura: foi quando restauraram o Theatro 4 de Setembro, que era um cinema, na época. Vieram muitos artistas de fora para as universidades e aqui era muito visitado. Quase todo mês vinham diretores de teatro para dar aula aqui”, conta o ator.

Além das dificuldades em conseguir incentivo do Estado, Airton conta que o público que assistia às peças piauienses também sempre foi escasso. “Nos anos 80 e 90, tinha o chamado ‘Clube dos 100’. Qualquer espetáculo em Teresina tinha 100 pessoas na plateia, as mesmas pessoas, era até numerado, hoje não temos mais nem os 100”, lamenta. Na lembrança do artista, a peça “Raimunda Pinto”, de Francisco Pereira Silva, tinha um grande público, chegando a três sessões em um dia.

Estudantes desinteressados?

Airton acredita que essa constante falta de público vem da falta de incentivo das universidades. Ele conta que, antigamente, existia um grande apoio dos estudantes universitários no teatro, principalmente na época da ditadura militar – a força de acadêmicos fazia com que os trabalhos não fossem censurados.

Apesar das dificuldades do passado, hoje, ele acredita que a situação está pior. “Acho que a grande formadora de público é a Universidade Federal do Piauí, mas os estudantes de hoje não se interessam mais em ver teatro. Preferem ver um show de forró ou sertanejo”, compara.

Luciano Brandão é um rapaz jovem, ator e diretor de peças teatrais. Branco, mais ou menos 1,70 de altura, veste calça jeans, camiseta largada e pés descalços. Tem uma fala mansa e se apresenta extrovertido, falante e sorridente – é fim de tarde e o encontramos na sala Procópio Ferreira, no Teatro 4 de Setembro, ministrando uma oficina de teatro para cerca de 10 alunos.

Tudo começou há vinte anos, em uma oficina de teatro que surgiu de um workshop onde, ao final, os alunos apresentariam como encerramento de turma a peça de Shakespeare “O sonho de uma noite de verão”.

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Luciano Brandão acredita que a supervalorização dos artistas de fora dificulta o trabalho do teatro local. (Foto: André Castro/Portal Luneta)

Nessa época, após concluir a oficina de atores, Luciano busca formação acadêmica, em São Paulo, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Tempos depois, formou-se e voltou para Teresina. “Fiquei fazendo a oficina com o Ari Martins e depois de mais ou menos cinco anos, ele foi convidado para fazer um trabalho fora do país e iria ter que abandonar a oficina. Foi então que eu assumi e venho mantendo há quinze anos”, diz.

Luciano vê a necessidade de criação de uma graduação em Artes Cênicas no estado para qualificar os artistas locais. Também é colocado que o momento político atual como um ponto de discussão à regulamentação da profissão, de forma que os futuros profissionais tenham argumentos para reagir.

Supervalorização do que é de fora

Indagado sobre as dificuldades em que o teatro piauiense enfrentava e continua enfrentando até hoje, Luciano diz que as dificuldades não são apenas locais. A grande dificuldade estaria na cultura brasileira de sempre valorizar aquilo que é de fora – o de internacional é sempre mais bonito. “Em São Paulo, as peças internacionais são mais valorizadas”, argumentou ao Luneta, completando: “Fazer teatro não é fácil, os pais não aceitam, a sociedade não aceita, as pessoas ainda possuem aquela visão de que é um hobby”.

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A oficina de teatro Procópio Ferreira existe a mais de 30 anos no Theatro 4 de setembro. (Foto:André Castro/Portal Luneta)

Visibilidade Global

Sentado num sofá improvisado com um colchão, no canto da sala, Luciano olha para os olhos dos autores desta reportagem e diz que adoraria ser descoberto pela Rede Globo. “Não passa pela minha cabeça projetos de audiovisual, apesar de já ter feito algumas coisas. Quando tenho alguma ideia, logo penso na linguagem do teatro. Mas se você me perguntar: e a Globo? Vou responder que meu sonho é cair nas garras dela”, revela, ironicamente.

“Minha paixão é o teatro, não me imagino fazendo outra coisa”. Com o surgimento da televisão e das telenovelas, atores globais (Rede Globo) ganharam um prestígio jamais visto, até mesmo por conta dos altos índices de audiência que suas obras possuem, enquanto os artistas de teatro são colocados em segundo plano. “Aqui (Brasil), nós temos essa cultura de ‘endeusar’ os atores globais. Isso é cultural”, criticou, em tom descontraído.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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